quarta-feira, 6 de maio de 2009

Carpeaux e o método

“Um professor de matemática – é Lichtenberg que conta a história – explicou certa vez aos estudantes um teorema, acrescentando: ‘Existe uma excelente demonstração desse teorema, mas não tenho muito tempo e não me sinto hoje bem disposto. Vocês me conhecem. Sabem que sou fidedigno. Juro que o teorema é verdadeiro. E basta’.
Gostaria de empregar esse mesmo ‘método’ de demonstração, jurando que O trapicheiro, o primeiro volume do roman-fleuve de Marques Rebelo, é muito bom; que é uma obra de valor extraordinário: e basta. Tempo, para demonstrá-lo, me sobra e disposição não me falta. Mas há vários outros motivos para justificar minha atitude axiomática. Antes de tudo: em que pesem os métodos científicos de crítica (dos quais aprovo muitos), não acredito que o valor de uma obra de arte possa jamais ser matematicamente demonstrado. A ciência não admite julgamentos de valor (v. Max Weber e Scheler); o desconhecimento dessa verdade leva os adeptos da crítica científica a prometer coisas que, depois, não sabem cumprir, fazendo crítica exatamente assim como os ‘impressionistas’ menos científicos. A mentalidade científica prefere basear suas explicações na descrição dos fatos; e basta”.

O trecho acima é uma verdadeira iluminação sobre o tipo de relação que um crítico literário deve estabelecer com as obras que comenta. É também representativo da concepção de crítica de Otto Maria Carpeaux. Foi extraído de “Suma de época”, artigo incluído na coletânea Livros na mesa, de 1960.
M.S.V.

sábado, 2 de maio de 2009

Dois poemas de Quintana

No próximo dia 5 de maio completam-se 15 anos desde a morte do poeta Mario Quintana (1906-1994). Por acreditar que a releitura de um livro é a maior homenagem que se pode prestar a um autor, releio Esconderijos do tempo.

Publicado em 1986, quando o autor já tinha uma trajetória consolidada no contexto da poesia brasileira, o volume traz 49 poemas bastante reveladores tanto do estilo quanto das temáticas que marcaram a obra poética de Quintana.

Como nos dois poemas transcritos a seguir, extraídos da belíssima Coleção Mario Quintana, organizada pela crítica literária Tânia Franco Carvalhal para a Editora Globo.

Ah, mundo...
Perdão!
Eu distraí-me ao receber a Extrema-Unção.
Enquanto a voz do padre zumbia como um besouro
eu pensava era nos meus primeiros sapatos
que continuavam andando
que continuam andando
-- rotos e felizes! –
por essas estradas do mundo.

Preparativos para a viagem
Uns vão de guarda-chuva e galochas,
outros arrastam um baú de guardados...
Inúteis precauções!
Mas,
Se levares apenas as visões deste lado,
nada te será confiscado:
todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
-- a sua única felicidade!
E os próprios Anjos, esses que fitam eternamente a face do Senhor...
os próprios Anjos te invejarão.

Aqui estão a ironia e o humor corrosivo diante da morte e o gosto pelas situações do cotidiano, sempre marcadas por um tratamento que busca fundir o real com o surreal. A poesia de Quintana está repleta de passadismo e de nostalgia.

Seu livro de estréia, A rua dos cataventos, foi mal recebido pela crítica, pois era feito de sonetos, numa época em que o Modernismo era hegemônico e o verso livre vigorava como o novo padrão de composição poética.

Mas não se pode ler a poesia de Quintana a partir dos pressupostos modernistas. Outros critérios poéticos precisam ser instaurados. Por isso a obra do poeta gaúcho necessita de uma releitura.
M.S.V.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sobre um conto de Roberto Bolaño

B. é um escritor desconhecido que anda sem rumo entre cidades da França e Bélgica. Vive mudando de hotel, lê romances que depois joga no lixo, toma notas mas não escreve nada. Gosta de gêneros menores e de escritores desconhecidos.

B. é o narrador de “Vagabundo na França e na Bélgica”, conto de Putas Assassinas (Companhia das Letras, 2008), do chileno Roberto Bolaño. Os personagens deste conto não têm nome, apenas iniciais, numa indicação de que os seres que habitam a narrativa já não têm mais identidade.

Existência marcada pela extraterritorialidade, B é espanhol de origem, lê romances policiais em francês, idioma que mal conhece, assiste filmes falados em inglês e percorre os sebos em busca de autores esquecidos. A seguir, um pequeno trecho significativo do conto:

“Na manhã seguinte pega um trem com destino a Paris. Hospeda-se no hotel da rue Saint-Jacques, em outro quarto, e dedica os primeiros dias a procurar nos sebos um livro qualquer de André du Bouchet. Não acha nada. Du Bouchet, como Henry, o de Masnuy, foi apagado do mapa. No quarto dia não sai mais à rua. Manda subir comida ao seu quarto, mas quase não come. Termina de ler o último romance que comprou e joga-o no cesto do lixo.” (pág. 91).

À primeira vista, parece estarmos diante de uma literatura que se alimenta da própria literatura, como em Borges. Mas não é isso. Nenhum personagem do escritor argentino joga um romance no lixo. Há um desprezo e uma descrença pela escrita literária que lembram os comentários de Monsieur Teste, de Valéry, que queimava seus cadernos de anotações.
M.S.V.

sábado, 28 de março de 2009

Perfume numa página de Proust

Há certos livros que nos acompanham durante anos em releituras sucessivas. Por quase uma década, Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, foi meu livro de cabeceira. Naquela época, nos anos oitenta, carregava sempre comigo um dos sete volumes da Busca.

Certa vez, durante uma viagem, um vidro de perfume que trazia na mala quebrou, molhando o exemplar de Proust. Quando abri minha bagagem no hotel, as páginas de À sombra da raparigas em flor, o segundo volume da série, na bela tradução de Mario Quintana, exalavam o perfume derramado.

As folhas de Proust secaram e os anos passaram, mas até hoje quando abro aquele exemplar o suave perfume me transporta de imediato para aquele quarto de hotel.

As circunstâncias e o motivo da viagem desapareceram da memória, mas o cenário do hotel, aquele insignificante momento, em que nada de especial acontecera, está até hoje vívido na lembrança. Trata-se apenas uma cena, ativada pelo toque daquelas páginas até hoje manchadas de perfume. É a memória involuntária, o fenômeno recriado a todo instante naquela obra, e que tanto fascina seus leitores.
M.S.V.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Naipaul e o enigma da chegada


Poucos escritores têm uma trajetória tão marcada pela distância de sua terra natal quanto V. S. Naipaul. Nascido em Trinidad, neto de brâmane e filho de um jornalista, Naipaul foi estudar em Oxford, na Inglaterra, quando tinha 18 anos. O que era para ser uma temporada de estudos, transformou-se numa permanência que dura até hoje. Mais do que isso: Vidiadhar Surajprasad (o V.S.) fez deste afastamento de suas origens a matéria-prima de sua ficção, que lhe valeu em 2001 o Prêmio Nobel de Literatura (foto).

Em O enigma da chegada, livro que releio agora após dez anos, Naipaul faz um acerto de contas com o passado. Isto por que, para ele, abraçar a carreira de escritor significava ao mesmo tempo adotar o inglês como idioma e romper com as próprias origens. “A pequenez colonial que não se coadunava com a grandeza de minha ambição”, lembra o escritor a certa altura deste livro.

O tema de O enigma da chegada gira em torno deste desejo de realizar-se como escritor num país estrangeiro, e isso implica refletir sobre a própria trajetória:

“Eu me tornara escritor após um longo período de preparação! E então descobri que ser escritor não era (como eu imaginava) um estado -- de competência, ou realização, ou fama, ou contentamento – aonde se chegava ou onde se permanecia.” Esta carreira trazia uma angústia específica: todo o trabalho que um livro me custara, todos os desafios e satisfações que ele me proporcionara, o tempo depois levava-os embora. E, com a passagem do tempo, eu sentia que minhas realizações passadas zombavam de mim; pareciam pertencer a uma época de vigor, que agora havia terminado para sempre. Voltavam o sentimento de vazio, a ianquietação; e tornava-se necessário mais uma vez, com base em meus recursos interiores apenas, empreender este processo exaustivo de novo.”

Este é o enigma de tornar-se escritor. Este é o enigma da chegada de Naipaul.
M.S.V.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Literatura em perigo não é novidade


Eis um livro que não está nem estará em minha mesa. Trata-se do recém lançado A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov (Trad. de Caio Meira, Difel, 96 p,., R$ 25). Não, caro leitor, não se trata de arrogância, desprezo ou falta de interesse pelo tema que, aliás, é dos mais importantes de nossa época.

Nesta obra, Todorov – um dos principais expoentes do estruturalismo francês – argumenta que o ensino e a pesquisa de literatura, feito por críticos e professores, está contribuindo para torná-la cada vez menos relevante na sociedade. Em síntese, argumenta que nas escolas e universidades (ele aborda exclusivamente a situação francesa, mas o que diz de lá vale igualmente para o que ocorre aqui) a preocupação metodológica e teórica tomou o lugar dos textos ficcionais.

Ora, qualquer um que conheça o que se passa num curso de Letras sabe que isso não é novidade. Para se institucionalizar enquanto área do conhecimento, as sub-áreas acadêmicas ligadas ao ensino e ao estudo das literaturas necessitaram constituir-se teoricamente. Aos poucos, os cursos de literatura foram se tornando cada vez mais teóricos e distanciando-se tos textos ficcionais.

Sei que estou generalizando e corro o risco de ser injusto com muitos dos excelentes professores de literatura que sabiamente conseguem combinar as duas coisas. Eu mesmo já tive aulas na USP com mais de um desses mestres, mas também já freqüentei cursos de literatura comparada que comparavam apenas teoria e nada diziam da criação literária.

Não é preciso ler este livro para saber que a literatura corre perigo. O assunto é antigo. Que o diga Paul Valéry, como nesta passagem incômoda mas verdadeira:

“Entre esses homens sem grande apetite pela poesia, que não conhecem a necessidade dela e que não a teriam inventado, quer o infortúnio que figure uma boa quantidade desses cuja tarefa ou destino é julgá-la, discorrer sobre ela; e, em suma, distribuir o que eles não tem. A isso dedicam, com freqüência, toda a sua inteligência e todo o seu zelo: e disso podem resultar conseqüências temíveis.”

Caro senhor Todorov; o senhor não tem o direito de publicar um livro como esse, pelo simples fato de que contribuiu para esse estado de coisas. Ou será que devemos esquecer todos os seus artigos?
M.S.V.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um abrigo contra o esquecimento

É preciso um talento incomum para transformar uma história de amor numa narrativa esteticamente convincente. Carta a D., de André Gorz (Trad. Celso Anzann Jr., Annablume/CosacNaify, 80 págs. R$ 29,00) consegue sair-se muito bem deste desafio.

Movido pelo desejo de recontar a trajetória de uma relação de quase seis décadas para compreender o sentido de sua própria existência, o narrador (autobiográfico) se lança na difícil tarefa de elaborar o passado. No entanto, o ato de lembrar não tem o sentido de culto ao passado: o que se vê são as lembranças iluminando o presente.

E sem preocupações de ordem cronológica. Uma lembrança puxa outra, num fluxo por vezes aleatório, mas sempre comovente. Como o trecho que descreve o momento em que ele e sua mulher de toda a vida, Dorine, se conheceram, na Paris do pós-guerra.

“Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista”, escreve. “Depois da terceira ou quarta saída, eu afinal beijei você”, relembra Gorz, em meio a relatos sobre as dificuldades para sobreviver e, mais ainda, viver como intelectual numa cidade como Paris, sem ter relações com pessoas influentes.

André Gorz e Dorine viveram juntos durante quase seis décadas “obsessivamente dedicados um ao outro”. Ao recontar a história desse amor e dessa comunhão incomuns, Gorz revela sua crença na escrita enquanto mecanismo de compreensão do sentido de uma vida.

Escrita esta que, em sua concretude, promete ser um abrigo contra o esquecimento e contra a morte. Ao que Gorz conclui: “eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos”.
M.S.V.

  A grandeza e a tragédia de Carpeaux na Europa O destino trágico de um jornalista político na Áustria durante a década de 1930. Esta é a sí...