“O caminho de sua vida era como que pavimentado, não havendo nele a menor racha onde o tempo pudesse florescer em erva”.
W. Benjamin, Imagens do pensamento.
“Aquilo que escreve dirige-se a ele e vale apenas para ele; se outros descobrirem aí alguma utilidade e prazer, tanto melhor”.
E. Auerbach, O escritor Montaigne.
“Menard – lembro-me – declarava que censurar e elogiar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica”.
J.L. Borges, Pierre Menard, autor do Quixote.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
domingo, 24 de janeiro de 2010
Bolaño e os dias de 1978

Os personagens são identificados apenas com letras: B, o jovem U e a mulher de U. O enredo se resume a encontros e desencontros de exilados chilenos na Europa, mais precisamente em Barcelona, na Espanha. O ano é 1978, B e U são conterrâneos que agora se vêem como estranhos.
Uma reunião de amigos no apartamento de um deles desencadeia os conflitos, reabre as feridas. Conversas sussurrantes, desejo de retornar ao Chile, suicídio. O relato de Roberto Bolaño no conto “Dias de 1978”, incluído na coletânea Putas assassinas (Companhia das Letras, trad. de Eduardo Brandão) expõe as fraturas existenciais de uma geração que lutou por ideais de uma sociedade menos desigual e mais democrática no Chile e cujas vidas foram sucumbindo lentamente no exílio, restando apenas medo e rancor.
Um conto perturbador, até mesmo para aqueles que não viveram os sonhos e as atrocidades daquele período.
M.S.V.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Vida e opiniões de Elizabeth Costello
Um verbete
Costello, Elizabeth. Escritora australiana nascida em Melbourne em 1928. Entre os anos 1951 e 1963 viveu na Inglaterra e na França. Tornou-se mundialmente conhecida a partir do romance A casa da rua Eccles, publicado em 1969, o quarto de sua carreira. Desde então, seu prestígio junto à crítica só tem aumentado. É convidada com frequência para proferir palestras sobre literatura e já existe em torno de sua obra uma pequena indústria crítica. Em Albuquerque, Novo México, nos Estados Unidos, fica a sede da Sociedade Elizabeth Costello, que se dedica a estudar e divulgar sua obra e que edita o Boletim Elizabeth Costello. Seus romances The Golden Notebobook e The Story of Christa T. foram considerados pela crítica como inovadores da literatura feminista. Em 1995 foi agraciada com o Prêmio Stowe, um dos mais importantes dos Estados Unidos e atribuído a cada dois anos a um escritor de destaque no cenário mundial. Na ocasião, ela esteve no Altona College, em Williamstown, Pensilvânia, para receber o prêmio Stone, no valor de cinquenta mil dólares, e uma medalha de ouro.
Uma opinião
O romance na África, segundo Costello: “O romance inglês é escrito em primeiro lugar por ingleses para ingleses. É isso que faz dele o romance inglês. O romance russo é escrito por russos para russos. Mas o romance africano não é escrito por africanos para africanos. Os romancistas africanos podem escrever sobre a África, sobre experiências africanas, mas me parece que estão olhando por cima do ombro o tempo todo enquanto escrevem, para os estrangeiros que lerão seus livros. Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores. No entanto, como é possível para alguém explorar um mundo em toda a sua profundidade se, ao mesmo tempo, precisa explicar o que está fazendo para uma classe de alunos ignorantes?” (Elizabeth Costello, p. 59)
Primeiras impressões
O verbete e a opinião acima são ficções e foram montados a partir dos dados fornecidos pelo narrador de Elizabeth Costello, romance de J. M. Coetzee, publicado no Brasil em 2004 (Ed. Companhia das Letras, trad. de José Rubens Siqueira) e que leio agora. Uma obra ficcional que se vale de expedientes narrativos próprios da escrita acadêmica com a finalidade de lançar um olhar crítico sobre a “indústria” que se forma em torno da figura do escritor. A narrativa lembra em muitos momentos Borges, mas não pelo estilo e sim pela proposta de misturar ficção com artigo crítico. O verbete e a opinião acima são exemplos dessa estratégia textual, sobre a qual voltarei a falar.
M.S.V.
Costello, Elizabeth. Escritora australiana nascida em Melbourne em 1928. Entre os anos 1951 e 1963 viveu na Inglaterra e na França. Tornou-se mundialmente conhecida a partir do romance A casa da rua Eccles, publicado em 1969, o quarto de sua carreira. Desde então, seu prestígio junto à crítica só tem aumentado. É convidada com frequência para proferir palestras sobre literatura e já existe em torno de sua obra uma pequena indústria crítica. Em Albuquerque, Novo México, nos Estados Unidos, fica a sede da Sociedade Elizabeth Costello, que se dedica a estudar e divulgar sua obra e que edita o Boletim Elizabeth Costello. Seus romances The Golden Notebobook e The Story of Christa T. foram considerados pela crítica como inovadores da literatura feminista. Em 1995 foi agraciada com o Prêmio Stowe, um dos mais importantes dos Estados Unidos e atribuído a cada dois anos a um escritor de destaque no cenário mundial. Na ocasião, ela esteve no Altona College, em Williamstown, Pensilvânia, para receber o prêmio Stone, no valor de cinquenta mil dólares, e uma medalha de ouro.
Uma opinião
O romance na África, segundo Costello: “O romance inglês é escrito em primeiro lugar por ingleses para ingleses. É isso que faz dele o romance inglês. O romance russo é escrito por russos para russos. Mas o romance africano não é escrito por africanos para africanos. Os romancistas africanos podem escrever sobre a África, sobre experiências africanas, mas me parece que estão olhando por cima do ombro o tempo todo enquanto escrevem, para os estrangeiros que lerão seus livros. Gostem ou não, eles aceitaram o papel de intérpretes, interpretando a África para seus leitores. No entanto, como é possível para alguém explorar um mundo em toda a sua profundidade se, ao mesmo tempo, precisa explicar o que está fazendo para uma classe de alunos ignorantes?” (Elizabeth Costello, p. 59)
Primeiras impressões
O verbete e a opinião acima são ficções e foram montados a partir dos dados fornecidos pelo narrador de Elizabeth Costello, romance de J. M. Coetzee, publicado no Brasil em 2004 (Ed. Companhia das Letras, trad. de José Rubens Siqueira) e que leio agora. Uma obra ficcional que se vale de expedientes narrativos próprios da escrita acadêmica com a finalidade de lançar um olhar crítico sobre a “indústria” que se forma em torno da figura do escritor. A narrativa lembra em muitos momentos Borges, mas não pelo estilo e sim pela proposta de misturar ficção com artigo crítico. O verbete e a opinião acima são exemplos dessa estratégia textual, sobre a qual voltarei a falar.
M.S.V.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Vozes da África e da biblioteca
Sérgio Augusto escreve no caderno Aliás, de O Estado de S. Paulo, que Desonra, de J.M. Coetzee, foi o melhor romance que leu “nos últimos dez anos”. Exagero. É verdade que o livro incomoda, e muito, e também é verdade que uma das funções da grande arte é justamente incomodar o leitor, fazê-lo ir além do puro entretenimento. Mas considerá-lo o melhor romance dos últimos dez anos é esquecer os últimos Phillip Roth ou ignorar Roberto Bolaño ou Le Clézio, cujas obras são por demais representativas da atual literatura.
No mesmo artigo, "Vozes d’África", o jornalista escreve que a África do Sul, sede da Copa do Mundo que inicia em junho de 2010, tornou-se “um dos países politicamente mais estáveis e democráticos do mundo, um modelo para os vizinhos, uma meca turística, um pólo de produção cinematográfica”. Pode até ser isso mesmo, mas a sociedade que surge da obra de Coetzee não é essa maravilha toda. Não se eliminam de uma hora pra outra os ressentimentos culturais fomentados durante décadas de apartheid. Talvez a principal qualidade da obra do autor sul-africano esteja em trazer à tona tudo aquilo que restou vivo depois que o regime de segregação racial foi oficialmente abolido naquele país.
Outra voz da África que não pode ser esquecida: Mia Couto, de Moçambique. Crítico e ao mesmo tempo um defensor da comunidade lusófona, Mia Couto diz que essa comunidade pode ser bastante útil como reação à homogeneização cultural provocada pela globalização. Vale conferir a entrevista que o moçambicano deu à revista Bula.http://www.revistabula.com/posts/entrevistas/entrevista-mia-couto.
Nesses dias um tanto sem sentido, entre o Natal e o Ano Novo, costuma acontecer algo curioso: andando de uma estante e outra da biblioteca, descubro livros esquecidos que aguardam há muito uma leitura, ou releitura. Sim, é preciso ter sempre surpresas esperando por nós entre as estantes da biblioteca. A escrita ou a vida, de Jorge Semprun, O cavalo perdido e outras histórias, de Felizberto Hernández e Monsieur Teste, de Paul Valéry. Três autores e distintos caminhos ficcionais: literatura feita de memória, de sonho e de reflexão crítica. Prova de que o território do ficcional é inesgotável e vai ao encontro de todos os tipos de leitores.
Em 2009 a Academia Sueca continuou surpreendendo ao agraciar a alemã Herta Müller com o Nobel de Literatura. Ela tem um único livro lançado no Brasil, O compromisso, lançado em 2004 pela editora Globo, com tradução de Lya Luft.
M.S.V.
No mesmo artigo, "Vozes d’África", o jornalista escreve que a África do Sul, sede da Copa do Mundo que inicia em junho de 2010, tornou-se “um dos países politicamente mais estáveis e democráticos do mundo, um modelo para os vizinhos, uma meca turística, um pólo de produção cinematográfica”. Pode até ser isso mesmo, mas a sociedade que surge da obra de Coetzee não é essa maravilha toda. Não se eliminam de uma hora pra outra os ressentimentos culturais fomentados durante décadas de apartheid. Talvez a principal qualidade da obra do autor sul-africano esteja em trazer à tona tudo aquilo que restou vivo depois que o regime de segregação racial foi oficialmente abolido naquele país.
Outra voz da África que não pode ser esquecida: Mia Couto, de Moçambique. Crítico e ao mesmo tempo um defensor da comunidade lusófona, Mia Couto diz que essa comunidade pode ser bastante útil como reação à homogeneização cultural provocada pela globalização. Vale conferir a entrevista que o moçambicano deu à revista Bula.http://www.revistabula.com/posts/entrevistas/entrevista-mia-couto.
Nesses dias um tanto sem sentido, entre o Natal e o Ano Novo, costuma acontecer algo curioso: andando de uma estante e outra da biblioteca, descubro livros esquecidos que aguardam há muito uma leitura, ou releitura. Sim, é preciso ter sempre surpresas esperando por nós entre as estantes da biblioteca. A escrita ou a vida, de Jorge Semprun, O cavalo perdido e outras histórias, de Felizberto Hernández e Monsieur Teste, de Paul Valéry. Três autores e distintos caminhos ficcionais: literatura feita de memória, de sonho e de reflexão crítica. Prova de que o território do ficcional é inesgotável e vai ao encontro de todos os tipos de leitores.
Em 2009 a Academia Sueca continuou surpreendendo ao agraciar a alemã Herta Müller com o Nobel de Literatura. Ela tem um único livro lançado no Brasil, O compromisso, lançado em 2004 pela editora Globo, com tradução de Lya Luft.
M.S.V.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
A escritura é a moral da forma
A frase acima é Roland Barthes, o admirado crítico francês que nos anos 1960 e 1970 foi muito lido. Pois foi com o autor de Fragmentos de um discurso amoroso que despertei para essa “divina increnca” que se chama crítica literária.
Ainda está vivo em minha memória o momento em que, numa feira de livros da longínqua Porto Alegre, no não menos distante ano de 1982, comprei um exemplar de Crítica e Verdade. Poucos títulos resumem tão bem o problema central desta atividade: que relação existe, afinal, entre crítica e verdade? Chega-se à verdade de uma obra por meio do exercício critico?
Agora, relendo O grau zero da escritura, percebo que este pequeno livro é uma preciosidade. No texto que abre esse ensaio, Barthes desenvolve o conceito de escritura, ligando-o às noções de língua e estilo. Enquanto aquela está aquém da literatura, o estilo está “quase além”, escreve.
“O estilo tem sempre algo de bruto: é uma forma sem destinação, o produto de um impulso, não de uma intenção, é como que uma dimensão vertical e solitária do pensamento”, sentencia mais adiante.
O estilo é, a um só tempo, liberdade e prisão. A voz própria de um escritor resulta do rompimento com a normatividade da língua e, ao mesmo tempo, se faz no interior dela. Não podemos sair da linguagem, assim como não podemos nos despir de nossa pele. Que relação há entre crítica e verdade? A escritura é a moral da forma.
M.S.V.
Ainda está vivo em minha memória o momento em que, numa feira de livros da longínqua Porto Alegre, no não menos distante ano de 1982, comprei um exemplar de Crítica e Verdade. Poucos títulos resumem tão bem o problema central desta atividade: que relação existe, afinal, entre crítica e verdade? Chega-se à verdade de uma obra por meio do exercício critico?
Agora, relendo O grau zero da escritura, percebo que este pequeno livro é uma preciosidade. No texto que abre esse ensaio, Barthes desenvolve o conceito de escritura, ligando-o às noções de língua e estilo. Enquanto aquela está aquém da literatura, o estilo está “quase além”, escreve.
“O estilo tem sempre algo de bruto: é uma forma sem destinação, o produto de um impulso, não de uma intenção, é como que uma dimensão vertical e solitária do pensamento”, sentencia mais adiante.
O estilo é, a um só tempo, liberdade e prisão. A voz própria de um escritor resulta do rompimento com a normatividade da língua e, ao mesmo tempo, se faz no interior dela. Não podemos sair da linguagem, assim como não podemos nos despir de nossa pele. Que relação há entre crítica e verdade? A escritura é a moral da forma.
M.S.V.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Anotações de um copista
Para que serve a literatura? Borges costumava responder a esta pergunta com outra: ninguém se questiona sobre a utilidade do canto de um passarinho ou das cores do céu ao entardecer, dizia.
No ensaio que abre a coletânea A cultura do romance (recém chegado às livrarias, e que comentei aqui outro dia), o escritor peruano Mario Vargas Llosa argumenta, com sabedoria e perspicácia, que a literatura e, em especial, o romance, não é um passatempo de luxo, destinado a uns poucos felizardos (geralmente mulheres) que dispõem de tempo livre para a leitura desinteressada. Desses argumentos, copio:
“A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com a vida do modo como a vivem. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa, é um modo astuto que inventamos para nos mitigar a nós mesmos pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a ser sempre os mesmos enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.” (“É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”, In: A cultura do romance, p.26. São Paulo: Cosacnaify, 2009, trad. de Denise Bottmann).
Numa época em que os amantes da literatura podem ser comparados aos membros de uma pequena seita e num tempo em que as paredes das casas não têm mais estantes com livros, o argumento de Vargas Llosa é uma iluminação, mais do que necessária nesses tempos sombrios para a cultura literária.
M.S.V.
No ensaio que abre a coletânea A cultura do romance (recém chegado às livrarias, e que comentei aqui outro dia), o escritor peruano Mario Vargas Llosa argumenta, com sabedoria e perspicácia, que a literatura e, em especial, o romance, não é um passatempo de luxo, destinado a uns poucos felizardos (geralmente mulheres) que dispõem de tempo livre para a leitura desinteressada. Desses argumentos, copio:
“A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com a vida do modo como a vivem. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa, é um modo astuto que inventamos para nos mitigar a nós mesmos pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a ser sempre os mesmos enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.” (“É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”, In: A cultura do romance, p.26. São Paulo: Cosacnaify, 2009, trad. de Denise Bottmann).
Numa época em que os amantes da literatura podem ser comparados aos membros de uma pequena seita e num tempo em que as paredes das casas não têm mais estantes com livros, o argumento de Vargas Llosa é uma iluminação, mais do que necessária nesses tempos sombrios para a cultura literária.
M.S.V.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O poema e a realidade
Quando se é jovem, e os sonhos ainda não passaram pelo crivo da realidade, nem os projetos foram postos à prova, então lemos poemas e nos emocionamos com eles.
Mas quando os barcos – bêbados de desejo – são arrastados por contra-ventos e marés e ameaçam bater em terras desconhecidas...
Quando já não se imagina que, da leitura de um simples soneto, poderá haver emoção, o surpreendente acontece. Uma lágrima solitária verte e escorre pelo rosto vincado por tantas tardes e manhãs, “que enchem de cinza o coração da gente”.
O que mais pedir de um poema? Basta que nos chacoalhe com seu cântico de certezas. Como na emoção despertada pela leitura do soneto XVI de A rua dos cataventos, de Mario Quintana.
M.S.V.
“Triste encando das tardes borralheiras
Que enchem de cionza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...
Mas quando os barcos – bêbados de desejo – são arrastados por contra-ventos e marés e ameaçam bater em terras desconhecidas...
Quando já não se imagina que, da leitura de um simples soneto, poderá haver emoção, o surpreendente acontece. Uma lágrima solitária verte e escorre pelo rosto vincado por tantas tardes e manhãs, “que enchem de cinza o coração da gente”.
O que mais pedir de um poema? Basta que nos chacoalhe com seu cântico de certezas. Como na emoção despertada pela leitura do soneto XVI de A rua dos cataventos, de Mario Quintana.
M.S.V.
“Triste encando das tardes borralheiras
Que enchem de cionza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...
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