Perguntam-me sobre a importância de Nelson Rodrigues para o jornalismo brasileiro. A resposta que primeiro se impõe parece óbvia: a crônica. Afinal, Nelson viveu do jornalismo, numa época em que a profissão era pouco mais do que um biscate; escreveu crônicas sobre variados assuntos, inclusive futebol, num momento em que a crônica era um produto das redações. E escreveu ficção, inclusive e principalmente nas redações dos jornais em que trabalhou.
Ruy Castro, em O anjo pornográfico, conta que certa vez Roberto Marinho chegou na Redação de O Globo, onde trabalhava Nelson, e o flagrou escrevendo uma de sua muitas histórias. “Escrevendo literatura no horário do expediente, seu Nelson”, teria dito o chefe. A resposta gerou uma acirrada discussão entre os dois, o que não era novidade.
Afinal, Marinho – assim como todos os colegas de redação -- sabia o tipo de jornalista que era Nelson. Onde quer que trabalhasse, o autor de Vestido de noiva, uma das obras-primas de nosso teatro, seria sempre um jornalista de índole ficcional. E Roberto Marinho sabia que isso era bom para a imprensa e para a empresa que dirigia, pois os artigos de Nelson Rodrigues vendiam jornal.
Então, talvez seja mais adequado pensar que a influência de Nelson Rodrigues para o jornalismo brasileiro talvez esteja no fato -- que não pode ser aferido concretamente – de que suas atividades de jornalista e de ficcionista – exercidas num mesmo local – contribuíram para o estabelecimento de uma tradição literária para a impensa brasileira, tradição esta que permanece viva até hoje.
Por isso não será exagero pensar que a linguagem jornalística deve muito ao estilo e à verve de Nelson Rodrigues, cuja trajetória coincide com a da evolução da reportagem e do jornalismo enquanto profissão.
M.S.V.
domingo, 9 de maio de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Sartre, testemunha de seu tempo

Poucas imagens tiveram tanta influência na minha formação quanto a do filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1980). No próximo dia 15 de abril completam-se três décadas da morte daquele que foi exemplo de intelectual público. No perfil que escreveu sobre ele para o caderno Sabático de O Estado de S. Paulo, no útimo sábado, Gilles Lapouge se pergunta sobre o que está vivo e o que está morto na obra do filósofo que escrevia à mesa do café de Flore, em Paris. Hoje, Sartre está esquecido, afirma Lapouge. O motivo parece simples: seu apego ao presente. Escreve Lapouge:
“Em vez de elaborar uma obra altiva, glacial e refugiada nas alturas impassíveis da filosofia ou da literatura, ele quis ser ao mesmo tempo o contemporâneo de todos os homens, o vigia, a testemunha e o combatente das lutas de seu tempo. Mas esse tempo se foi. Já não existe. Os combates da segunda metade do século 20 se extinguiram”.
No plano político, foram muitos os erros cometidos por Sartre nas causas em que se envolveu: o comunismo, a guerra fria, o apoio a Cuba. É claro que nessa época todos acreditávamos na Cuba de Fidel. A História, no entanto, se encarregaria de mostrar que os messianismos políticos sempre levam a becos sem saída. Mas Sartre foi também um dos pioneiros na defesa da descolonização e sua importância nesse processo ainda não foi devidamente dimensionada.
Mas a obra de Sartre que mais fundo me atingiu naqueles anos de formação foi A Náusea, romance que li com angústia e fascínio no longínquo ano de 1982. O livro é um libelo do existencialismo e retrata o cotidiano de Antoine de Roquentin, um sujeto que é meio intelectual, meio pária, um autodidata que passa o dia estudando tratados de filosofia na biblioteca pública de Paris, numa vida inútil e sem sentido. Por essa época, eu também vivia enfurnado na biblioteca pública de Porto Alegre, cidade em que vivia então.
A leitura de A Náusea provovou em mim um sentimento de repulsa, de náusea com aquele tipo de vida contemplativa, improdutiva. Quando fechei o livro já estava submerso numa profunda crise existencial, da qual, creio, ainda não me curei de todo. O livro provoca forte reação ao intelectualismo; saimos de sua leitura desejando uma profissão prática, feita de ação e não de reflexão. Passados tantos anos, penso que esta obra talvez tenha sido o estopim que me fez trocar o mediano ambiente do curso de Letras pela promessa de uma carreira autoral e com voz própria no jornalismo. Mas isso é outra história.
Sartre foi chamado muitas vezes de jornalista por seus inimigos, mas ele não temia falar para o grande público, numa época em que a função do intelectual ainda não estava restrita à academia, como hoje. Poucos desempenharam tão bem a função de intervenção na esfera pública como Sartre. Foi um intermediário cultural e através de sua obra muitos tiveram acesso às idéias e às questões mais relevantes na segunda metade do século 20, os chamados “Anos Sartre”. E isso não é pouco.
M.S.V.
domingo, 4 de abril de 2010
Pode um poeta ensinar literatura?
Conta-se que, certa vez, o escritor russo-americano Vladimir Nabokov (1899-1977) foi cogitado para um cargo de professor de literatura na Universidade Harvard. Tudo parecia certo quando o linguista, também russo, Roman Jakobson (1896-1982), que dava aulas lá, perguntou aos colegas: o próximo passo, então, será contratar um elefante para dar aula de Zoologia?
Não sei se o episódio é verdadeiro. Parece-me pouco plausível que um sujeito de tanto talento como Jakobson, e que foi um dos pioneiros da análise estrutural da linguagem literária, tenha sido capaz de uma atitude tão mesquinha.
Mas não é difícil imaginar tal cena num dos incontáveis departamentos de literatura, daqui ou de fora. Isso porque o estudo e o ensino da literatura instituiram-se na universidade na medida em que fundaram um campo próprio, habitado por especialistas, o que excluiu, de plano, os criadores (escritores e poetas).
A questão de fundo aponta para uma pergunta simples, mas de difícil resposta: afinal, pode um escritor de ficção ou um poeta tornar-se um exímio professor de literatura? Pode! E o contrário, é possível? Acho muito difícil.
Ocorre-me outra pergunta, correlata: pode um assassino escrever um bom poema? Pode! E pode um elefante ensinar Zoologia? Não! Ora, Zoologia é uma ciência; literatura não é.
M.S.V.
Não sei se o episódio é verdadeiro. Parece-me pouco plausível que um sujeito de tanto talento como Jakobson, e que foi um dos pioneiros da análise estrutural da linguagem literária, tenha sido capaz de uma atitude tão mesquinha.
Mas não é difícil imaginar tal cena num dos incontáveis departamentos de literatura, daqui ou de fora. Isso porque o estudo e o ensino da literatura instituiram-se na universidade na medida em que fundaram um campo próprio, habitado por especialistas, o que excluiu, de plano, os criadores (escritores e poetas).
A questão de fundo aponta para uma pergunta simples, mas de difícil resposta: afinal, pode um escritor de ficção ou um poeta tornar-se um exímio professor de literatura? Pode! E o contrário, é possível? Acho muito difícil.
Ocorre-me outra pergunta, correlata: pode um assassino escrever um bom poema? Pode! E pode um elefante ensinar Zoologia? Não! Ora, Zoologia é uma ciência; literatura não é.
M.S.V.
domingo, 28 de março de 2010
Paul Valéry e a escrita fragmentada
Entre as inúmeras particularidades da obra de Paul Valéry, uma delas chama a atenção do leitor: sua escrita fragmentada e descontínua. O fragmento valeriano instaura em seu discurso um movimento do pensamento feito de retomadas e de retificações. É essa escrita essencialmente descontínua que permeia o fabuloso trabalho dos Cahiers.
Durante mais de cinqüenta anos, entre 1.894 e 1945, ano de sua morte, Valéry dedicou-se ao interminável trabalho de escrever suas "notes du petit jour". Ao todo, foram 256 cahiers escritos manhã após manhã.
Em Valéry, a prática do fragmento se confunde com a gênese de sua obra. Era costume seu utilizar-se, por exemplo, dos mais diferentes materiais para anotar suas idéias: envelopes, embalagens etc.
Esta verdadeira obsessão do poeta francês pelo fragmento remete à idéia de obra enquanto estágio embrionário, provisório e um pensamento que se faz a partir de um movimento que não cessa de se formular. Uma reprise contínua. As idéias em seu estado bruto.
M.S.V.
Durante mais de cinqüenta anos, entre 1.894 e 1945, ano de sua morte, Valéry dedicou-se ao interminável trabalho de escrever suas "notes du petit jour". Ao todo, foram 256 cahiers escritos manhã após manhã.
Em Valéry, a prática do fragmento se confunde com a gênese de sua obra. Era costume seu utilizar-se, por exemplo, dos mais diferentes materiais para anotar suas idéias: envelopes, embalagens etc.
Esta verdadeira obsessão do poeta francês pelo fragmento remete à idéia de obra enquanto estágio embrionário, provisório e um pensamento que se faz a partir de um movimento que não cessa de se formular. Uma reprise contínua. As idéias em seu estado bruto.
M.S.V.
quarta-feira, 3 de março de 2010
As digressões de Elizabeth Costello
“Não é o métier dela, a argumentação. Ela não deveria estar ali”, pensa o narrador. Elizabeth Costello é uma escritora bem-sucedida, que reúne sucesso do público e boa reputação junto à crítica.
Mas é uma palestrante medíocre. Perde-se em digressões, defendendo uma postura radical em relação ao consumo de carne e na defesa do modo vegetariano de alimentação. Sua postura veemente contra a criação e o abate de animais para consumo incomoda o leitor. Somos tentados a pular essas páginas que reproduzem trechos de suas palestras e abordam um assunto sobre o qual gostaríamos de não falar.
O livro é estruturado em oito palestras, tem um pós-escrito e até agradecimentos, onde são registradas as primeiras versões dessas palestras, tudo exatamente como se fosse um livro de ensaios.
Os argumentos de Costello são tão realistas que somos tentados a conferir a veracidade dessas fontes, mas aí lembramos que estamos diante de uma obra de ficção. Ou não?
Essas digressões são longas e enfadonhas e abordam temas como a racionalidade, a ciência e a “matança” de animais feita pelos humanos.
Tais comentários se estendem por quase todo o livro, ocupam o lugar do enredo, reduzindo a economia narrativa a essas discussões, que lembram mais a mente de um autodidata do que a prosa ensaística de um Camus ou um Sebald, por exemplo.
Ao mesmo tempo, o leitor quer saber sobre a trajetória dessa escritora, mas tudo o que recebe são essas enfadonhas digressões, feitas num tom de retórica acadêmica, que inclui citações e notas de rodapé.
Mas estamos ou não diante de uma ficção? Neste livro, o leitor é sufocado diante de tantas discussões que não conduzem a lugar algum. Pelo menos é esta a sensação que tenho neste momento da leitura, após ter percorrido pouco mais da metade do livro.
Nesse ponto, fechei as páginas do livro de Coetzee e agora leio Estrela distante, uma pequena novela de Roberto Bolaño.
M.S.V.
Mas é uma palestrante medíocre. Perde-se em digressões, defendendo uma postura radical em relação ao consumo de carne e na defesa do modo vegetariano de alimentação. Sua postura veemente contra a criação e o abate de animais para consumo incomoda o leitor. Somos tentados a pular essas páginas que reproduzem trechos de suas palestras e abordam um assunto sobre o qual gostaríamos de não falar.
O livro é estruturado em oito palestras, tem um pós-escrito e até agradecimentos, onde são registradas as primeiras versões dessas palestras, tudo exatamente como se fosse um livro de ensaios.
Os argumentos de Costello são tão realistas que somos tentados a conferir a veracidade dessas fontes, mas aí lembramos que estamos diante de uma obra de ficção. Ou não?
Essas digressões são longas e enfadonhas e abordam temas como a racionalidade, a ciência e a “matança” de animais feita pelos humanos.
Tais comentários se estendem por quase todo o livro, ocupam o lugar do enredo, reduzindo a economia narrativa a essas discussões, que lembram mais a mente de um autodidata do que a prosa ensaística de um Camus ou um Sebald, por exemplo.
Ao mesmo tempo, o leitor quer saber sobre a trajetória dessa escritora, mas tudo o que recebe são essas enfadonhas digressões, feitas num tom de retórica acadêmica, que inclui citações e notas de rodapé.
Mas estamos ou não diante de uma ficção? Neste livro, o leitor é sufocado diante de tantas discussões que não conduzem a lugar algum. Pelo menos é esta a sensação que tenho neste momento da leitura, após ter percorrido pouco mais da metade do livro.
Nesse ponto, fechei as páginas do livro de Coetzee e agora leio Estrela distante, uma pequena novela de Roberto Bolaño.
M.S.V.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Carpeaux e os dois modelos de crítica

Já escrevi neste espaço que, no momento em que Otto Maria Carpeaux (1900-1978) inicia sua produção no Brasil, ou seja, na década de 40, o campo da crítica literária atravessa um período de redefinição de sua própria existência e função. Uma fase de transição que vai da crítica não especializada, exercida então por profissionais de diversas áreas que escrevem para os jornais, ao surgimento dos primeiros críticos oriundos da universidade. Seja nos rodapés de página ou em colunas fixas, os críticos diletantes, cujo principal expoente foi Álvaro Lins, predominam nos anos 1940 e 50, quando surgem os críticos com formação mais especializada, obtida na universidade.
Ora, a crítica de Carpeaux situa-se na confluência entre os dois modelos acima citados, apresentando característica de ambos. A própria biografia de Carpeaux o coloca a meio caminho entre o diletante (era formado em Química e Física) e o crítico com formação específica em ciências humanas (cursou Filosofia e Sociologia em Paris e Literatura Comparada em Nápoles).
Por outro lado, razões de sobrevivência o levaram ao exercício da crítica profissional e a escrever com regularidade na imprensa. Nesse ponto poderíamos enquadrá-lo no contexto da velha crítica dos rodapés, juntamente com nomes como Tristão de Athayde, Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet e outros, além do já citado Álvaro Lins.
Assim, não seria exagero afirmar que o percurso ensaístico de Carpeaux desloca-se entre os dois pólos da crítica enquanto gênero: do impressionismo dos homens de letras à abordagem teórica que será a marca da crítica acadêmica que se institui neste período.
M.S.V.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Três aforismos
“O caminho de sua vida era como que pavimentado, não havendo nele a menor racha onde o tempo pudesse florescer em erva”.
W. Benjamin, Imagens do pensamento.
“Aquilo que escreve dirige-se a ele e vale apenas para ele; se outros descobrirem aí alguma utilidade e prazer, tanto melhor”.
E. Auerbach, O escritor Montaigne.
“Menard – lembro-me – declarava que censurar e elogiar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica”.
J.L. Borges, Pierre Menard, autor do Quixote.
W. Benjamin, Imagens do pensamento.
“Aquilo que escreve dirige-se a ele e vale apenas para ele; se outros descobrirem aí alguma utilidade e prazer, tanto melhor”.
E. Auerbach, O escritor Montaigne.
“Menard – lembro-me – declarava que censurar e elogiar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica”.
J.L. Borges, Pierre Menard, autor do Quixote.
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