Estive em Porto Alegre há algumas semanas e aproveitei para voltar à Casa de Cultura Mário Quintana. Quem entra nesse velho e imponente prédio da Rua da Praia, no centro da cidade, onde um dia funcionou o Hotel Majestic, e que já foi morada do poeta durante muitos anos, sente que está diante de algo muito maior do que um centro cultural.
Nos tempos áureos do Hotel Majestic, Porto Alegre era cenário da modernidade, de uma vida literária que incluía autores, tradutores, mercado editorial e leitores. Mário Quintana foi um desses personagens, mas havia muitos outros talentos circulando por lá.
Quando entrei numa sala que remetia à obra de Érico Veríssimo, pude ver algumas fotografias daquele que até hoje figura como um dos maiores nomes da literatura brasileira. As imagens retratavam as diferentes fses da carreira do autor de O tempo e o vento.
Todos os ícones que traduzem a figura de um escritor estão nessas fotos: Érico escrevendo, em viagem, brincando com o filho, posando ao lado de gatos, Érico à frente de sua máquina de escrever. É impressionante como Érico tinha consciência de sua imagem enquanto escritor. Não apenas escrevia, mas passava a imagem pública de que era alguém que vivia como escritor. Se pensarmos que sua carreira se desenvolveu nos anos 1960-70, surpreende que, numa Porto Alegre absolutamente periférica (não vai aí nenhum juízo de valor, mas antes uma crítica aos pontos de vista geograficamente centrais) havia um escritor que vivia enquanto tal. E que não deixava de registrar sua vida de escritor em imagens.
O fato, por si só, é revelador de que o ambiente que o cercava era autenticamente literário. Numa possível história da vida literária em Porto Alegre na segunda metade do século 20, Érico Veríssimo será um capítulo à parte, assim como Mário Quintana, a Editora do Globo, o Suplemento Literário do Correio do Povo. Enfim, são indicadores da modernidade no Sul do país.
M.S.V.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
As leituras profissionais e a "inutilidade” da ficção
Outro dia postei um comentário sobre a impossibilidade de se ler, nos dias de hoje, um romance de 600 páginas. O motivo era o lançamento de Liberdade, o mais recente livro do americano Jonathan Franzen. Quem tem tempo hoje para enfrentar 600 páginas?, perguntava então naquele post. Quanto mais adentramos na vida adulta (com seus inevitáveis compromissos), menos contato temos com a leitura de ficção. Leituras profissionais e/ou técnicas não contam.
A constatação me incomodou, pois meu ganha-pão é o ensino e as paredes de minha casa estão repletas de livros. Estou cercado de obras teóricas, de referências, dicionários, publicações acadêmicas, que utilizo em minha profissão. Mas é a literatura, que sempre trazia comigo e que sempre fez parte de minha formação? Foi preciso uma campanha de marketing para me despertar dessa letargia profissional. O estopim foi justamente o romance Liberdade, de Franzen.
Na Livraria que mais frequento, a Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, era impossível não dar de cara com o romance de Franzen, tão forte era a campanha publicitária do livro, com exemplares empilhados em locais estratégicos, posters, anúncios e o ineviátel apelo: “mais de um milhão de exemplares vendidos”. Além, é claro, do comentário crítico do jornal The Guardian, transformado em slogan: “o livro do ano e do século”. Sempre que vejo um comentário crítico ser usado como propaganda de um livro, como neste caso, penso que Adorno tinha razão quando comparou os críticos a mercadores.
Mas eis que não resisti e comecei a ler Liberdade. A primeira sensação é de estranhamento com aquele mundinho pueril da classe média norte-americana. Aos poucos, porém, o leitor vai se envolvendo com os hábitos dos personagens, seus pensamentos, suas ações. A primeira dessas personagens a ser construída pela narrativa é Patty Berglund, a protagonista. A narrativa de Franzen é ágil e envolve o leitor. Quando me dei conta, já tinha lido quarenta páginas, numa sentada. Fui fisgado. Volto ao romance.
M.S.V.
A constatação me incomodou, pois meu ganha-pão é o ensino e as paredes de minha casa estão repletas de livros. Estou cercado de obras teóricas, de referências, dicionários, publicações acadêmicas, que utilizo em minha profissão. Mas é a literatura, que sempre trazia comigo e que sempre fez parte de minha formação? Foi preciso uma campanha de marketing para me despertar dessa letargia profissional. O estopim foi justamente o romance Liberdade, de Franzen.
Na Livraria que mais frequento, a Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, era impossível não dar de cara com o romance de Franzen, tão forte era a campanha publicitária do livro, com exemplares empilhados em locais estratégicos, posters, anúncios e o ineviátel apelo: “mais de um milhão de exemplares vendidos”. Além, é claro, do comentário crítico do jornal The Guardian, transformado em slogan: “o livro do ano e do século”. Sempre que vejo um comentário crítico ser usado como propaganda de um livro, como neste caso, penso que Adorno tinha razão quando comparou os críticos a mercadores.
Mas eis que não resisti e comecei a ler Liberdade. A primeira sensação é de estranhamento com aquele mundinho pueril da classe média norte-americana. Aos poucos, porém, o leitor vai se envolvendo com os hábitos dos personagens, seus pensamentos, suas ações. A primeira dessas personagens a ser construída pela narrativa é Patty Berglund, a protagonista. A narrativa de Franzen é ágil e envolve o leitor. Quando me dei conta, já tinha lido quarenta páginas, numa sentada. Fui fisgado. Volto ao romance.
M.S.V.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Literatura no Paquistão: só para inglês ver
Há certas literaturas que não podem se dedicar exclusivamente à fabulação, ao imaginativo, já que precisam se ocupar com o real. Com isso, acabam por tornar-se mais um documento da realidade do que um monumento da criação poética e romanesca. Isto costuma ocorrer em sociedades fechadas, em que a liberdade de expressão não tem livre circulação. Logo, a literatura acaba por assumir um papel de tribuna, papel esse que, em condições nornais, seria desempenhado pelo jornalismo.
Isso fica mais evidente quando se examinam os caminhos do romance neste século 21. Leio no Suplemento Prosa & Verso, do jornal O Globo, entrevista da escritora paquistanesa Kamila Shamsie, que tem seu romance Sombras marcadas (Ed. Alfaguara) recém-lançado no país.
Nascida em Karachi, no Paquistão, em 1973, seu livro (o primeiro a ser lançado no Brasil) aborda as marcas deixadas nos sobreviventes pela tragédia nuclear de Nagasaki, ocorrida durante a Segunda Guerra. Há analogias com acontecimentos decorrentes dos atentados de 11 de setembro, quando o Paquistão, juntamente com o Afeganistão, passou ao primeiro plano dos conflitos internacionais e, pela entrevista da autora, é possível conhecer seus pontos de vista sobre a função da literatura. “O trabalho da ficção e o da reportagem são complementares, me baseei muito no trabalho de jornalistas para fazer esse romance”, afirma Kamila Shamsie.
Destaco o trecho final da entrevista, bastante revelador da situação da literatura no Paquistão e do pouco contato dos leitores com os escritores paquistaneses que, a exemplo de Shamsie, escrevem em inglês.
“Os romancistas de língua inglesa atingem uma percentagem muito pequena da população paquistanesa: o governo nunca tomou conhecimento de nós (até agora!). É diferente com os escritores em urdu e em outras línguas com um alcance mais amplo, que historicamente sofreram com prisões e ameaças. Hoje, os jornalistas são os mais atingidos pela violência.”
Impossível não concluir que Kamila Shamsie cumpriria melhor sua função pública de escritora paquistanesa se escrevesse em idiomas que estivessem mais ao alcance da população, e não em inglês. Sua literatura, supostamente de denúncia, só interessará realmente aos paquistaneses. No Ocidente e no Brasil, onde seu romance acaba de chegar, terá apenas um sabor exótico, secundário.
M.S.V.
sábado, 21 de maio de 2011
Existem leitores para 600 páginas?
Na próxima semana chega às livrarias o novo romance de Jonathan Franzen (foto), Liberdade. São mais de 600 páginas. É claro que vem aclamado pela crítica (ela é parte do mercado) e credenciado pelo suposto sucesso junto aos leitores norte-americanos. Sérgio Augusto, em sua coluna do suplemento Sabático, de O Estado de S. Paulo, afirma que o “romance pode ser lido como um folhetim”. Duvido. Ainda existirão hoje leitores para 600 páginas? Quem se deixará levar por uma “história alegórica em torno de uma família do Meio Oeste norte-americano”?
O gênero romance tem uma longa tradição e sua longevidade esta associada à sua capacidade de renovação. Já tivemos Balzac e Tolstoi com seus calhamaços, suas sagas e painéis de época. E já tivemos Proust com seus parágrafos intermináveis. Agora ficamos sabendo que Franzen escreve ao estilo do século 19.
Lançado no ano passado, Liberdade cobre três décadas, conta a saga de uma família e aborda temas tãso atuais como a guerra do Iraque, a crise financeira de 2008 e até a campanha de Obama à presidência. Na ocasião, a apresentadora de TV Oprah Winfrey não poupou elogios ao livro, enquanto sua produção distribuía exemplares de Liberdade à platéia. "Eu aposto que Freedom, de Jonathan Franzen, acabará sendo para vocês como é para mim: um dos melhores romances que vocês já leram", disse ela.
Ao explorar um contexto histórico recente, Franzen revela seu apego ao factual, que costuma transformar a ficção num artefato documental. Nossa época, aliás, tem um forte apego ao documental. Talvez seja essa a chave para ler o novo romance de Franzen. E de seu “aclamado” sucesso de público. Mas quem se habilita hoje, no Brasil, a enfrentar as 600 páginas de uma saga familiar? Num único volume? Cada vez mais prefiro as narrativas curtas, os enredos rarefeitos, os personagens esboçados.
M.S.V.
domingo, 8 de maio de 2011
Especialização e cultura generalista
A crescente e inevitável especialização do conhecimento tem cada vez mais confinado a produção do saber na esfera acadêmica. Num mundo de especialistas, parece causa perdida insistir no interesse geral e na cultura geral. Principalmente por que essa ideia pode sucumbir com facilidade na simplificação operada pela grande mídia, sempe mais interessada no acontecimento e na audiência do que na problematização das questões.
Os efeitos da fragmentação do conhecimento e da lógica disciplinar que rege a vida acadêmica – e essa é uma tendência mundial – já são visíveis tanto na linguagem das ciências humanas e sociais, quanto no viés epistemológico que as inspira: o modelo de produção das ciências exatas. Nossas pesquisas hoje resultam em textos relatoriais, em que o estilo é (mal) visto como um resquício do ensaismo que um dia era a marca das humanidades.
A pergunta que precisa ser feita diante desse estágio do nosso conhecimento é a seguinte: é possível defender uma cultura generalista num mundo de especialistas? Penso que sim. E acredito também que essa discussão passa pela linguagem, pelo texto.
M.S.V.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Calvino e o “círculo do livro”
O escritor italiano Italo Calvino publicou Se um viajante numa noite de inverno em 1979. Já escrevi aqui que este é um romance sobre a escrita do romance. Fala de manuscritos perdidos, falsificações, editores, tradutores, estudiosos de literatura. Enfim, de todo aquele conjunto de agentes que compõe o campo literário.
O trecho selecionado a seguir parece antever a era da ficção amarrada com o merchandising. Até onde sei, o fenômeno não ocorreu com o romance, mas integra “naturalmente” a produção das novelas de TV.
A edição que possuo é do Círculo do Livro, editora que até a década de 1980 faturava alto com suas edições de best sellers vendidos por correspondência. Cheguei a comprar alguns livros por esse método, e ainda lembro que 99% do catálogo era de obras de auto-ajuda, romances açucarados e best sellers. As edições eram muito bem encadernadas e as capas coloridas, feitas para fisgar o leitor.
Que essa obra de Calvino tenha sido publicada pelo Círculo do Livro é algo para o qual não tenho explicação. Escreve o italiano, a certa altura de seu meta-romance:
“Há alguns meses que Flannery entrou em crise; não escreve mais uma só linha; os numerosos romances que começou e pelos quais recebeu, de editores do mundo inteiro, adiantamentos em dinheiro que pressupunha financiamentos bancários internacionais, esses romances, que tinham contratos passados por intermédio de agências de publicidade internacionais, as quais já tinham especificado a marca das bebidas que tomariam as personagens, as localidades turísticas que frequentariam, quais seus modelos de alta costura, quais os fornecedores de mobiliário e de gadgets, esses romances estão incompletos, à mercê de uma crise espiritual tão inexplicável quanto inesperada. Uma equipe de colaboradores secretos, especialistas na arte de imitar o estilo do mestre com todas as suas nuanças e maneirismos, mantém-se pronta a intervir para tapar os furos, arrematar e completar os textos redigidos pela metade, de tal modo que nenhum leitor possa distinguir entre as partes devidas à mão de um ou dos outros”. (Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo, Círculo do Livro, s/d, p.116, trad. Margarida Salomão).
M.S.V.
domingo, 17 de abril de 2011
O primeiro parágrafo fisga o leitor
Sempre que estou numa livraria, em busca de um romance novo (ou antigo) para ler, me divirto lendo o primeiro parágrafo da história. Se o início de um romance me atrai, provavelmente vou continuar a lê-lo. Creio que todo escritor sabe que é preciso fisgar o leitor já nas primeiras linhas. Imagino uma antologia da literatura formada unicamente pelo primeiro parágrafo de romances, novelas e até contos. Transcrevo a seguir três inesquecíveis começos de histórias que li na juventude e que até hoje não cesso de reler.
“O Coronel destampou a lata do café e notou que apenas restava uma colherinha de pó. Tirou a panela do fogo, jogou no chão de barro batido a metade da água e raspou de faca todo o interior da vasilha, até botar na panela o que restava, uma mistura de raspas com ferrugem. Sentado junto ao fogão, em atitude de confiada e inocente expectativa enquanto o café não fervia, o Coronel como que sentiu brotar de suas tripas cogumelos e lírios malignos. Era outubro. Eis uma manhã difícil de vencer, esta, mesmo para um homem de sua fibra, sobrevivente de tantas outras manhãs. Havia cinqüenta e seis anos – desde que acabara a última guerra civil – que ele não fazia outra coisa senão esperar. Outubro era uma dessas raras coisas que chegavam”. (Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel García Márquez).
“Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno da solidão”. (O Continente 1, de Erico Veríssimo)
Na ardente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros vermelhos; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudara o universo mas eu não, pensei com melancólica vaidade”. (O Aleph, de Jorge Luis Borges)
M.S.V.
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