sábado, 20 de julho de 2013

Comunicação e literatura em fricção

Será possível (re)aproximar a comunicação da literatura? Pois este é um dos propósitos da coletânea Pensamento comunicacional latino-americano através da literatura (São Paulo: Intercom, 2013). O livro reúne trabalhos apresentados XVI Colóquio Internacional da Escola Latino-americana de Comunicação, realizado de 08 a 10 de agosto de 2012, na UNESP de Bauru.
O tema do encontro, “pensamento comunicacional latino-americano através da literatura”, foi concebido com a finalidade buscar o diálogo entre duas áreas que, por definição, estão em lugares opostos e, não raro, sempre em contenda ou, no mínimo, em fricção. O livro traz o melhor do que foi apresentado no Colóquio. A seguir, transcrevo trechos da Introdução ao livro, intitulada “Comunicação, ficção e a função integradora dos saberes” (p.15-21):
“Dividido em quatro partes, inicia com uma homenagem a Jorge Fernández feita por seu filho, o equatoriano Marcelo Fernández, seguida por artigo de José Marques de Melo, que destaca a trajetória deste pioneiro dos estudos de comunicação na América Latina. Em seguida, traz artigos que abordam o diálogo entre comunicação e literatura de autoria de Muniz Sodré, Tania Rosing, Cremilda Medina, Sinval Medina e Laan Mendes de Barros, cinco renomados especialistas no tema central do evento.
A obra também aborda alguns aspectos contemporâneos da questão, trazidos pelo olhar de ilustres pesquisadores do campo da comunicação, como Maria Cristina Gobbi, Elizabeth Gonçalves, Isabel Travancas, Francisco Sierra Caballero e Sebastião Albano da Costa. Na quarta parte da coletânea, o diálogo entre comunicadores e ficcionistas se revela na abordagem de Mauro Souza Ventura, Antonio Hohlfeldt, Esmeralda Villegas Uribe e Sônia Jaconi.
Mais do que diálogo, o que se viu durante o XVI Celacom -- e o leitor poderá comprovar nos textos desta coletânea --, foi uma evidente demonstração da atualidade das relações que permeiam e dão forma aos campos da comunicação e da literatura. Afinal, seria possível pensar a Comunicação por meio da ficção, ou vice-versa? Os painéis e debates apresentados no Celacom 2012 mostraram que esses dois campos podem e devem permanecer em diálogo”.

M.S.V.

domingo, 2 de junho de 2013

Evocação do Danúbio

O rio Danúbio, em Viena.
Em suas memórias, Elias Canetti relembra o Danúbio de sua cidade natal, Ruschuk, na Bulgária, local onde viviam pessoas das mais diferentes nacionalidades, e onde era possível ouvir, num único dia, “sete ou oito idiomas diferentes”. Cidade portuária do Baixo Danúbio, Ruschuk atraía pessoas de toda parte e o rio era motivo de conversa e inspiração para os mais variados relatos e causos. “Havia histórias sobre aqueles anos em que o Danúbio congelou; sobre as viagens de trenó pelo gelo, até a Romênia [na outra margem do rio]; sobre os lobos famintos que assediavam os cavalos dos trenós”, escreve Canetti em A língua absolvida (Companhia das Letras, trad. Kurt Jahn).
Canetti lembra que, navegando rio acima, chegava-se a Viena, a capital da Europa Central, que era vista como o limite entre a Europa e o Império Otomano. “Quando alguém viajava para Viena, subindo o Danúbio, dizia-se que viajava para a Europa”, escreve Canetti.
Mas o Danúbio é muito mais do que as recordações “do rio que corre pela minha aldeia”. O Danúbio nasce na Alemanha e segue, serpenteando por entre florestas, montanhas e vales, em direção ao Mar Negro. Com uma bacia de 817.000 quilômetros quadrados que atravessa a Europa Central, está até hoje envolto em simbolismo histórico, político e cultural. “É o rio ao longo do qual se encontram, se entrecruzam e se misturam povos diversos. É o rio de Viena, de Bratislava, de Budapeste, de Belgrado”, escreve o estudioso italiano Claudio Magris.   
Magris nasceu em Triste, é professor de Literatura na Itália e tornou-se conhecido como estudioso do mito habsbúrgico na literatura austríaca. Seu Danúbio (Ed. Rocco, 1992, trad. de Elena Grechi e Jussara Ribeiro) é um alentado ensaio histórico-literário e bastante pessoal do rio que sintetiza como poucos a cosmovisão supranacional da Europa Central.
Mas o Danúbio que gostaria de evocar aqui, e em cujas margens estive numa certa tarde de sábado, na Marina de Viena, é um amálgama de povos e culturas, uma resistência aos nacionalismos, uma metáfora do hibridismo cultural, um rio que une a Europa à Ásia. E, ao contrário do que promete aquela valsa, não é azul; é cinza, por que também naquela tarde de sábado o céu estava cinza.

M.S.V.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O escrevente aos cinqüenta (o que faz um escritor?)

Das memórias de Elias Canetti: “Numa cidade como Salzburg, as pessoas são receptivas aos escritores”. Mas o que faz de um escritor um escritor? Raduan Nassar escreveu um ou dois livros e abandonou a literatura. Tornou-se canônico. E há escritores que permanecem vivos mais por sua atuação na mídia do que por suas criações. Tornam-se marketing.
***
Planejou durante muitos anos uma trajetória a ser construída com a publicação regular, contínua de seus projetos de escrita. A vida acadêmica e o excesso de trabalho o conduziram a outra trilha. Depois de publicar um primeiro livro de ensaios em 1995 e de voltar em 2002 com um estudo sobre um importante crítico literário, não conseguiu dar continuidade a uma trajetória que apenas se esboçara. Passaram-se, desde então, dez anos, gastos com a inserção na vida acadêmica, as aulas na graduação e na pós-graduação, o redirecionamento de pesquisas e de publicações, a orientação de alunos, a gestão, as guerras, a infâmia, os aborrecimentos. É assim que chega aos cinqüenta anos: como um escrevente; alguém que usa a palavra como um meio, um instrumento.
***
Eis um trecho de Barthes que não se cansa de repetir: “os escreventes são homens transitivos: eles colocam um fim (testemunhar, explicar, ensinar) para o qual a palavra é apenas um meio; para eles, a palavra suporta um fazer, ela não o constitui. Eis, pois, a linguagem reduzida à natureza de um instrumento de comunicação, de um veículo do ‘pensamento’. Mesmo se o escrevente concede alguma atenção à escritura, esse cuidado nunca é ontológico: não é preocupação”. Para o escrevente, ao contrário, o ato da escrita não é intransitivo. Sua escritura está sujeita a demandas, vindas do mercado, da academia, das instituições.
***
“Não vivo do que escrevo, mas vivo para escrever, afirma o escritor Sinval Medina, que acaba de lançar, sem qualquer alarde o belíssimo O cavaleiro da terra de ninguém, uma biografia romanceada do sertanista e rei dos tropeiros Cristóvão Pereira de Abreu. Uma narrativa fascinante que, apesar dos arcaísmos de linguagem, prende o leitor do início ao fim. Mas voltemos à frase de Sinval, pois ela demarca seu lugar de fala. Eis um escritor que escolhe seus temas, constrói seu estilo e ordena suas narrativas sem transigir com o mercado, com a mídia, com a academia. Isso talvez explique em parte sua pouca visibilidade no conjunto da literatura atual, em que as estratégias midiáticas garantem um lugar nesse perverso regime de visibilidade. Mas Sinval Medina é um escritor cuja produção apresenta regularidade, desde o ano de 1980, quando publicou seu primeiro romance, Liberdade condicional. Não vive do que escreve, mas vive para escrever. Eis um escritor no sentido pleno da palavra, e que não sofre do mal de Montano.
M.S.V.

O escrevente aos cinqüenta (a maldição de Montano)


Abre uma página de O mal de Montano, de Henrique Vila-Matas. Seus olhos passeiam pelas obsessões literárias do escritor catalão, mas seu pensamento se perde no quarto escuro da memória, este “baú de espantos” em que se desenha o malogro existencial e material de seus projetos de escrita. “O primeiro malogro está ligado à tardividade de minha formação, e que me constitui enquanto ser”, recorda. O segundo malogro é mais palpável: diz respeito às condições materiais da vida. Obrigado a ganhar o sustento, primeiro no jornalismo, depois na sala de aula, seus projetos de escrita sempre estiveram submetidos ao aspecto instrumental dessas atividades. “Haverá tempo?”, pergunta.
***
Retorna a esse livro que é em tudo um incômodo, a começar pelo título: Crítica e verdade, de Roland Barthes. Este pequeno volume, que comprou quando tinha 21 anos, sempre exerceu sobre ele um fascínio e uma resistência à leitura. Folheia o livro e constata que há vários trechos sublinhados, marcas de leitura que indicam que já se perdeu por aquelas páginas. E há também a memória de leitura, e por ela comprova que já leu certos artigos, como o seminal “Escritores e escreventes”, mas desconfia que jamais tenha conseguido terminar a leitura de todos esses ensaios. Crítica e verdade poderão caminhar juntas?
***
Gastou a juventude buscando o que? “Os livros não vieram; ficaram dentro de mim, como projeto de filhos abortados”, repete para si mesmo. Aqueles ensaios sobre literatura e cultura também não foram escritos. Sempre o trabalho, sempre a busca da sobrevivência. Olha-se ao espelho e o que vê é um acadêmico, imerso num laborioso e angustiante trabalho de Sísifo. “Onde ficou o desenvolvimento da carreira autoral? É a maldição de Montano.”
M.S.V.

domingo, 4 de novembro de 2012

Da memória de um leitor


Três romances me marcaram desde sempre: O Continente, de Érico Veríssimo, Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel García Márquez e Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Essas histórias remetem a três dimensões de minha formação: o primeiro fala das origens, em uma região específica do Brasil, e que sempre precisam ser superadas; o segundo expõe a contingência e as implicações de ser latino-americano. E o terceiro remete à tradição ocidental, da qual somos ramos tardios.
Esses três romances ajudaram-me e ainda me ajudam a entender quem sou e o que estou sendo. Compartilho, a seguir, as inesquecíveis primeiras linhas desses três romances. (M.S.V.)

“Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno da solidão”. (O Continente 1, de Erico Veríssimo)

“O Coronel destampou a lata do café e notou que apenas restava uma colherinha de pó. Tirou a panela do fogo, jogou no chão de barro batido a metade da água e raspou de faca todo o interior da vasilha, até botar na panela o que restava, uma mistura de raspas com ferrugem. Sentado junto ao fogão, em atitude de confiada e inocente expectativa enquanto o café não fervia, o Coronel como que sentiu brotar de suas tripas cogumelos e lírios malignos. Era outubro. Eis uma manhã difícil de vencer, esta, mesmo para um homem de sua fibra, sobrevivente de tantas outras manhãs. Havia cinqüenta e seis anos – desde que acabara a última guerra civil – que ele não fazia outra coisa senão esperar. Outubro era uma dessas raras coisas que chegavam”. (Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel García Márquez).

“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: ‘Adormeço’. E, meia hora depois, despertava-me a idéia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela”.(Em busca do tempo perdido, Vol. 1 - No caminho de Swann, de Marcel Proust).

domingo, 19 de agosto de 2012

Vida de professor, destino de escrevente


Os poucos e exigentes leitores deste blog me perguntam por que tenho postado com menos freqüência nos últimos meses. Respondo com uma palavra: é a vida de professor universitário, que, com suas demandas tantas, quase não deixa tempo para a prática de uma escrita livre, dirigida ao público amplo, e não aos pares, como ocorre na vida acadêmica atual. Pois são tantas as atividades e incumbências que um professor de universidade pública brasileiro precisa cumprir atualmente que tudo deve ser direcionado ao campo acadêmico. Tudo precisa resultar numa entrada no Lattes, sob o risco de nada “render”. Vejo-me hoje transformado num escrevente acadêmico, imerso num laborioso e angustiante trabalho de Sísifo. “Onde se escondeu o projeto de uma carreira autoral?”, pergunto-me.
Releio o ensaio “escritores e escreventes”, de Roland Barthes, incluído na coletânea Crítica e verdade (Ed. Perspectiva). O texto é da década de 1950, mas parece ter sido escrito ontem, pois ajuda, e muito, a pensar sobre as políticas implícitas no ato da escrita. Sua definição de escrevente, em oposição ao conceito de escritor, é lúcida e precisa.
“Os escreventes são homens transitivos: eles colocam um fim (testemunhar, explicar, ensinar) para o qual a palavra é apenas um meio; para eles, a palavra suporta um fazer, ela não o constitui. Eis, pois, a linguagem reduzida à natureza de um instrumento de comunicação, de um veículo do ‘pensamento’. Mesmo se o escrevente concede alguma atenção à escritura, esse cuidado nunca é ontológico: não é preocupação”, escreve Barthes. Para o escrevente, o ato da escrita não é intransitivo. Sua escritura está sujeita a demandas, vindas do mercado, da academia, das instituições. Voltarei ao assunto.
M.S.V.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Na semana da Flip, a literatura de Jonathan Franzen


Franzen, capa da Time

Nesta quarta-feira começa a décima edição da Flip, a Festa Literária de Paraty. Embora o escritor homenageado seja o nosso maior poeta, Carlos Drummond de Andrade, boa parte das atenções devem se dirigir para a presença de três dos mais importantes escritores em atividade hoje. Estarão presentes em Paraty o norte-americano Jonathan Franzen, o inglês Ian McEwan e o espanhol (na verdade, catalão) Enrique Vila-Matas. Três vozes bem distintas uma da outra, mas extremamente significativas da literatura praticada neste século XXI.
Percorro livrarias em São Paulo e vejo que os livros de Franzen inundam as prateleiras. Até uma coletânea de artigos dele (“Como ficar sozinho?”) foi traduzida. Franzen já está no Brasil e, pelo que leio, deseja conhecer um pouco do país após seus compromissos na Flip. Quer visitar a Bahia e o Pantanal, onde pretende fotografar pássaros, seu hobby favorito.
Aproveito o fait-divers em torno de Franzen e retomo a leitura interrompida de Liberdade, romance lançado no final do ano passado e que chegou aclamado como o “livro do ano e do século”. Não é nada disso. Já li resenhas comparando Liberdade a Guerra e Paz, de Tolstoi. Um enorme exagero, talvez motivado pelo fato de que Patty, a protagonista, aparece lendo o romance de Tolstoi... Isso não basta. Aliás, há muita estratégia de marketing na visibilidade de Franzen. A narrativa de Liberdade é longa demais, há digressões demais.
Para viver de sua atividade, um escritor precisa de mercado. Romances longos, como este, que tem 600 páginas, são bons para o mercado editorial, pois o preço de capa é maior, assim como os lucros do autor, que precisa viver disso. Considerando que um escritor de qualidade (como é o caso de Franzen) compete com inimigos poderosos, como a indústria do audiovisual, a internet e com o colapso do hábito de leitura, nada mais justo que ele se preocupe com a economia de seu trabalho. Um livro de 100 páginas gera lucros ínfimos para todo o circuito de produção editorial.
Mas do ponto de vista exclusivamente narrativo, me parece inegável que Liberdade poderia ter a metade do seu tamanho. Uma crítica efetivamente isenta de uma obra precisa separar todo esse aparato mercadológico que circunscreve o lançamento de um produto no mercado da obra em si. Tinha razão Pierre Bourdieu quando escreveu que a indústria de bens simbólicos procura sempre esconder a economia que faz o circuito funcionar.
Em Liberdade, Franzen tenta retomar a velha tradição do romance social, bem ao gosto do leitor do século 19 e 20, antes que as vanguardas operassem a viravolta narrativa. O cenário do livro é o Meio Oeste dos EUA, onde se passam histórias familiares contemporâneas recheadas de relacionamentos confusos, sentimentos difusos, amizade, paixão, traição... Como numa série de TV.
Mas uma coisa não se pode negar: ele escreve muito bem. O livro tem estilo ágil, vocabulário moderno, linguagem despojada, temas do dia-a-dia, como ambientalismo, antidepressivos, crise financeira. Leio 30 páginas de uma só vez. Desta proeza somente são capazes os grandes narradores. Penso em Stendhal, e na Cartucha de Parma, cuja leitura alterno com o romance de Franzen.
M.S.V.

  A grandeza e a tragédia de Carpeaux na Europa O destino trágico de um jornalista político na Áustria durante a década de 1930. Esta é a sí...