sábado, 29 de agosto de 2009

Anotações de um copista

Dois inesquecíveis começos de romances, para relembrar ou descobrir.

“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: ‘Adormeço’. E, meia hora depois, despertava-me a idéia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela”. (Em busca do tempo perdido,Vol. 1, de Marcel Proust).

“Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno da solidão”. (O Continente 1, de Erico Veríssimo)

M.S.V.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

"O cacto", de Bandeira

Houve tempo em que a leitura de poemas era para mim um hábito quase diário. Tenho a impressão de que a poesia é mais necessária quando somos jovens e estamos ainda em busca de um caminho.

Entre os poetas brasileiros, Manuel Bandeira talvez tenha sido o autor ao qual mais retornei para releituras. E não havia mediação crítica nessas leituras. Só muito mais tarde, já aluno de Teoria Literária na USP, é que acrescentei à minha experiência de leitura as análises do crítico literário e professor Davi Arrigucci Jr.

Foi num de seus cursos que conheci O cacto, um pequeno poema que o professor Davi analisava em aula. De seu método, guardei para sempre a atitude que todo leitor deve ter diante da poesia, antes mesmo da interpretação: trata-se da escavação filológica, procedimento aberto por Erich Auerbach. Publicado em 1925, O cacto impressiona pela beleza áspera que exala de seus versos.

“Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.

Este poema é exemplar da peculiaridade da poesia de Manuel Bandeira, obra forjada, no dizer de Arrigucci Jr., num momento decisivo, “intenso e complexo da história cultural brasileira na década de vinte, quando se renova a consciência artística nacional e vão se firmando em nosso meio as tendências da arte moderna”. (O cacto e as ruínas, p.11)

Concebida em meio aos embates entre tradição e renovação, arcaísmo e modernismo, velho e novo, atraso e desenvolvimento, a poética de Bandeira cataliza e expressa as contradições históricas da década de 20. Revela também o diálogo do poeta com a tradição literária, visível no segundo e terceiro versos da primeira estrofe, em que aparece o drama de Laocoonte sendo devorado pelas serpentes.

A Divina Comédia, de Dante, está presente no episódio do conde Ugolino, que, na prisão, devora os próprios filhos para não morrer de fome (Canto XXXIII, do Inferno).
O cacto foi escrito em Petrópolis, RJ, em 1925. É mesmo um poema belo, áspero e surpreendente até hoje.
M.S.V.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um Orkut do livro?

É muito bem-vindo o surgimento de O livreiro, uma rede social dedicada ao mundo do livro. Lançada na Flip deste ano, em Paraty, o projeto, ainda em fase experimental, pretende ser um agregador de conteúdo ligado à leitura e ao livro.
Criado pela Infoglobo, empresa que edita o jornal O Globo, entre outras publicações, O Livreiro pretende ser um espaço de relacionamento para todos aqueles que gostam de ler, independente de gênero, preferência, faixa etária etc. A home do site explica que se trata de “uma rede social para quem gosta de livro. De qualquer tipo: poesia, história, música, internet, comportamento, clássicos, quadrinhos, filosofia, gastronomia”.
Além de criar páginas pessoais, os internautas poderão expandir a teia adicionando amigos, criando comunidades e conectando-se aos mais variados tópicos, sempre ligados ao mundo do livro. Num país de poucos leitores, como o Brasil, a iniciativa deve ser não apenas aplaudida, mas disseminada entre os jovens.
M.S.V.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Anotações de um copista

Manhã tranqüila, à mesa de trabalho para ler, sublinhar, marcar e anotar os movimentos de minha leitura. À moda de um copista medieval, transcrevo passagens, anoto fragmentos. Ao acaso, vou construindo uma teia de vastas emoções e pensamentos imperfeitos.

Zigmunt Bauman é minha leitura de auto-ajuda. A metáfora da vida líquida, marcada pela precariedade, "vivida em condições de incerteza constante", é uma imagem reconfortante para enfrentar os desafios da vida presente.

Estar sempre pronto a reiniciar, a livrar-se das coisas com despreendimento, com o mesmo desapego que empregamos quando adquirimos algo. Escreve Bauman:

"A vida líquida é uma sucessão de reinícios, e precisamente por isso é que os finais rápidos e indolores, sem os quais reiniciar seria inimaginável, tendem a ser os momentos mais desafiadores e as dores de cabeça mais inquietantes. Entre as artes da vida líquido-moderna e as habilidades necessárias para praticá-las, livrar-se das coisas tem prioridade sobre adquiri-las." (Vida líquida, p. 8)

Em outra passagem, Bauman enumera as atitudes daqueles que dominam a arte da vida líquida: "aquiescência à desorientação, imunidade à vertigem, adaptação ao estado de tontura, tolerância com a falta de itinerário e direção, e com a duração indefinida da viagem." (Idem, p.10)
M.S.V.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Descobrir Cortázar

Morto há 25 anos em Paris, o argentino Julio Cortázar é um escritor para ser descoberto sem pressa. Autor de “O jogo da Amarelinha”, “História de Cronópios e de Famas” e “Bestiário”, Cortázar criou uma obra difícil de ser definida. Construiu um verdadeiro continente literário cuja palavra-chave para descortiná-lo talvez seja o "fantástico".
A seguir, um link do Youtube onde o escritor fala brevemente sobre a criação de uma de suas obras-primas, História de Cronópios e de Famas.
M.S.V.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Carpeaux e o método

“Um professor de matemática – é Lichtenberg que conta a história – explicou certa vez aos estudantes um teorema, acrescentando: ‘Existe uma excelente demonstração desse teorema, mas não tenho muito tempo e não me sinto hoje bem disposto. Vocês me conhecem. Sabem que sou fidedigno. Juro que o teorema é verdadeiro. E basta’.
Gostaria de empregar esse mesmo ‘método’ de demonstração, jurando que O trapicheiro, o primeiro volume do roman-fleuve de Marques Rebelo, é muito bom; que é uma obra de valor extraordinário: e basta. Tempo, para demonstrá-lo, me sobra e disposição não me falta. Mas há vários outros motivos para justificar minha atitude axiomática. Antes de tudo: em que pesem os métodos científicos de crítica (dos quais aprovo muitos), não acredito que o valor de uma obra de arte possa jamais ser matematicamente demonstrado. A ciência não admite julgamentos de valor (v. Max Weber e Scheler); o desconhecimento dessa verdade leva os adeptos da crítica científica a prometer coisas que, depois, não sabem cumprir, fazendo crítica exatamente assim como os ‘impressionistas’ menos científicos. A mentalidade científica prefere basear suas explicações na descrição dos fatos; e basta”.

O trecho acima é uma verdadeira iluminação sobre o tipo de relação que um crítico literário deve estabelecer com as obras que comenta. É também representativo da concepção de crítica de Otto Maria Carpeaux. Foi extraído de “Suma de época”, artigo incluído na coletânea Livros na mesa, de 1960.
M.S.V.

sábado, 2 de maio de 2009

Dois poemas de Quintana

No próximo dia 5 de maio completam-se 15 anos desde a morte do poeta Mario Quintana (1906-1994). Por acreditar que a releitura de um livro é a maior homenagem que se pode prestar a um autor, releio Esconderijos do tempo.

Publicado em 1986, quando o autor já tinha uma trajetória consolidada no contexto da poesia brasileira, o volume traz 49 poemas bastante reveladores tanto do estilo quanto das temáticas que marcaram a obra poética de Quintana.

Como nos dois poemas transcritos a seguir, extraídos da belíssima Coleção Mario Quintana, organizada pela crítica literária Tânia Franco Carvalhal para a Editora Globo.

Ah, mundo...
Perdão!
Eu distraí-me ao receber a Extrema-Unção.
Enquanto a voz do padre zumbia como um besouro
eu pensava era nos meus primeiros sapatos
que continuavam andando
que continuam andando
-- rotos e felizes! –
por essas estradas do mundo.

Preparativos para a viagem
Uns vão de guarda-chuva e galochas,
outros arrastam um baú de guardados...
Inúteis precauções!
Mas,
Se levares apenas as visões deste lado,
nada te será confiscado:
todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
-- a sua única felicidade!
E os próprios Anjos, esses que fitam eternamente a face do Senhor...
os próprios Anjos te invejarão.

Aqui estão a ironia e o humor corrosivo diante da morte e o gosto pelas situações do cotidiano, sempre marcadas por um tratamento que busca fundir o real com o surreal. A poesia de Quintana está repleta de passadismo e de nostalgia.

Seu livro de estréia, A rua dos cataventos, foi mal recebido pela crítica, pois era feito de sonetos, numa época em que o Modernismo era hegemônico e o verso livre vigorava como o novo padrão de composição poética.

Mas não se pode ler a poesia de Quintana a partir dos pressupostos modernistas. Outros critérios poéticos precisam ser instaurados. Por isso a obra do poeta gaúcho necessita de uma releitura.
M.S.V.

  A grandeza e a tragédia de Carpeaux na Europa O destino trágico de um jornalista político na Áustria durante a década de 1930. Esta é a sí...