Para que serve a literatura? Borges costumava responder a esta pergunta com outra: ninguém se questiona sobre a utilidade do canto de um passarinho ou das cores do céu ao entardecer, dizia.
No ensaio que abre a coletânea A cultura do romance (recém chegado às livrarias, e que comentei aqui outro dia), o escritor peruano Mario Vargas Llosa argumenta, com sabedoria e perspicácia, que a literatura e, em especial, o romance, não é um passatempo de luxo, destinado a uns poucos felizardos (geralmente mulheres) que dispõem de tempo livre para a leitura desinteressada. Desses argumentos, copio:
“A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com a vida do modo como a vivem. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa, é um modo astuto que inventamos para nos mitigar a nós mesmos pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a ser sempre os mesmos enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.” (“É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”, In: A cultura do romance, p.26. São Paulo: Cosacnaify, 2009, trad. de Denise Bottmann).
Numa época em que os amantes da literatura podem ser comparados aos membros de uma pequena seita e num tempo em que as paredes das casas não têm mais estantes com livros, o argumento de Vargas Llosa é uma iluminação, mais do que necessária nesses tempos sombrios para a cultura literária.
M.S.V.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O poema e a realidade
Quando se é jovem, e os sonhos ainda não passaram pelo crivo da realidade, nem os projetos foram postos à prova, então lemos poemas e nos emocionamos com eles.
Mas quando os barcos – bêbados de desejo – são arrastados por contra-ventos e marés e ameaçam bater em terras desconhecidas...
Quando já não se imagina que, da leitura de um simples soneto, poderá haver emoção, o surpreendente acontece. Uma lágrima solitária verte e escorre pelo rosto vincado por tantas tardes e manhãs, “que enchem de cinza o coração da gente”.
O que mais pedir de um poema? Basta que nos chacoalhe com seu cântico de certezas. Como na emoção despertada pela leitura do soneto XVI de A rua dos cataventos, de Mario Quintana.
M.S.V.
“Triste encando das tardes borralheiras
Que enchem de cionza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...
Mas quando os barcos – bêbados de desejo – são arrastados por contra-ventos e marés e ameaçam bater em terras desconhecidas...
Quando já não se imagina que, da leitura de um simples soneto, poderá haver emoção, o surpreendente acontece. Uma lágrima solitária verte e escorre pelo rosto vincado por tantas tardes e manhãs, “que enchem de cinza o coração da gente”.
O que mais pedir de um poema? Basta que nos chacoalhe com seu cântico de certezas. Como na emoção despertada pela leitura do soneto XVI de A rua dos cataventos, de Mario Quintana.
M.S.V.
“Triste encando das tardes borralheiras
Que enchem de cionza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...
domingo, 25 de outubro de 2009
A cultura do romance

Nenhum outro gênero renega tanto sua própria natureza quanto o romance. Desacreditado, quase sempre em crise, ele atravessou os séculos e sobreviveu a ataques de todos os tipos, do Estado, da Religião e até da própria crítica, que por mais de uma vez lhe decretou a morte ou o acusou de falsificar a realidade.
O fato é que, desde meados do século XIX, quando o gênero se fixou entre os leitores das metrópoles européias, com os ingleses Defoe e Fielding, o romance construiu mais do que uma história: há mesmo uma cultura do romance manifesta em certas constantes, como o individualismo, o mito do herói, a formação da personalidade (bildungsroman), a interioridade, o sujeito, o narrador, a viagem.
Esses aspectos e muitos outros estão contemplados na gigantesca e fascinante coleção O Romance, coordenada pelo crítico italiano Franco Moretti, cujo primeiro volume (A cultura do Romance) foi lançado recentemente no país (Cosac Naify, 1.120 págs., trad. de Denise Bottman, R$ 130). Organizada em cinco volumes, a coleção conta com 178 colaboradores de diversas nacionalidades. Do Brasil estão Roberto Schwarz e Luiz Costa Lima.
A idéia do organizador é dissecar o gênero romance a partir de uma visão multidisciplinar. Para isso, foram convidados a colaborar não só especialistas em literatura, mas de áreas como antropologia, sociologia, filosofia, história e até geografia.
O projeto de Moretti aspira a ser muito mais do que uma história da literatura (afinal, quantas já temos?). Seu desejo é, sobretudo, ser uma reação ao close reading (a leitura fechada da obra) e ao processo de hierarquização de obras e valores feito pela ideia de cânone (leia-se Harold Bloom). Nada mais necessário para os dias de hoje.
M.S.V.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Crítica literária e jornalística
Em entrevista recente, fui perguntado sobre as diferenças entre a crítica jornalística e a crítica literária. O assunto é importante, pois mexe com fatores cruciais para se entender os rumos atuais da cultura letrada. Respondi que toda crítica literária é, em maior ou menor grau, jornalística, pois tem por função servir de intermediação entre o autor e o público.
O Brasil possui uma vasta tradição de crítica literária publicada em jornais, e mais do que isso: produzida para o jornal. Depois, é claro, essa crítica vira livro, mas aí já é outra coisa.
E por que existe essa proximidade? Porque o crítico precisa comunicar algo para o público. Há uma dimensão publicista da crítica literária que não pode ser esquecida. Ora, o que acontece quando o crítico literário deixa de escrever para o público? Não precisa publicar mais em jornal, e sim em revistas acadêmicas. Por isso sustento essa proximidade entre a crítica jornalística e a literária. São parte da mesma matriz discursiva.
É claro que essa crítica jornalístico-literária quase não existe mais hoje, pois a imprensa só abre espaço para resenhas. E a resenha é um gênero distinto, mais factual, sem profundidade, sem análise, somente um comentário breve.
Enfim, o que temos hoje é, de um lado, o resenhismo rápido e superficial; de outro, a crítica acadêmica que fica restrita à universidade, aos congressos etc. Uma crítica mais ‘técnica’, sem preocupação com a linguagem, sem estilo. Uma crítica esotérica, fechada, para poucos, para os professores.
E o público que ainda gosta de literatura? Este está órfão, pois não pode contar mais com o crítico de sólida formação e que ainda escreve com clareza e inteligência. É evidente que o jornalista profissional não consegue cumprir esta função, pois não tem nem formação, nem tempo.
Portanto, a única possibilidade que vejo para o crítico literário hoje é a universidade, já que no jornalismo não sobra tempo para a formação, para a leitura. Escrever crítica demanda tempo e dedicação. Por outro lado, os especialistas em teoria literária só escrevem para os especialistas.
Acredito que o crítico é um intelectual que possui uma função pública a desempenhar, a de intermediário entre o autor e o público.
Nesse sentido, o crítico deve ser um hospedeiro do artista, mas um hospedeiro que possui autonomia diante das pressões do mercado e visão crítica. Enfim, um sujeito independente, e isso custa muito caro.
M.S.V.
O Brasil possui uma vasta tradição de crítica literária publicada em jornais, e mais do que isso: produzida para o jornal. Depois, é claro, essa crítica vira livro, mas aí já é outra coisa.
E por que existe essa proximidade? Porque o crítico precisa comunicar algo para o público. Há uma dimensão publicista da crítica literária que não pode ser esquecida. Ora, o que acontece quando o crítico literário deixa de escrever para o público? Não precisa publicar mais em jornal, e sim em revistas acadêmicas. Por isso sustento essa proximidade entre a crítica jornalística e a literária. São parte da mesma matriz discursiva.
É claro que essa crítica jornalístico-literária quase não existe mais hoje, pois a imprensa só abre espaço para resenhas. E a resenha é um gênero distinto, mais factual, sem profundidade, sem análise, somente um comentário breve.
Enfim, o que temos hoje é, de um lado, o resenhismo rápido e superficial; de outro, a crítica acadêmica que fica restrita à universidade, aos congressos etc. Uma crítica mais ‘técnica’, sem preocupação com a linguagem, sem estilo. Uma crítica esotérica, fechada, para poucos, para os professores.
E o público que ainda gosta de literatura? Este está órfão, pois não pode contar mais com o crítico de sólida formação e que ainda escreve com clareza e inteligência. É evidente que o jornalista profissional não consegue cumprir esta função, pois não tem nem formação, nem tempo.
Portanto, a única possibilidade que vejo para o crítico literário hoje é a universidade, já que no jornalismo não sobra tempo para a formação, para a leitura. Escrever crítica demanda tempo e dedicação. Por outro lado, os especialistas em teoria literária só escrevem para os especialistas.
Acredito que o crítico é um intelectual que possui uma função pública a desempenhar, a de intermediário entre o autor e o público.
Nesse sentido, o crítico deve ser um hospedeiro do artista, mas um hospedeiro que possui autonomia diante das pressões do mercado e visão crítica. Enfim, um sujeito independente, e isso custa muito caro.
M.S.V.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Pequena crônica de um grande gênero
Entre todos os gêneros de escrita, a crônica talvez seja o mais livre e, ao mesmo tempo, mais difícil de ser definido. E isto se deve, creio, à amplitude estilística e temática que a caracterizam. Na imprensa brasileira, por exemplo, tudo aquilo que é publicado sob a rubrica de crônica acaba se incorporando a esse caldeirão de estilos em que cabe tudo, ou quase.
O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, por exemplo, classifica de crônica todos os seus escritos jornalísticos. Onde quer que escreva e sobre o assunto que for, será sempre crônica, costuma repetir em suas entrevistas.
No Brasil, a crônica é praticada desde o início de nossa literatura. Há quem diga que se trata de um gênero tipicamente brasileiro, assim como o ensaio é identificado como um gênero tipicamente inglês. É evidente que não somos os únicos a escrever crônica e nem o ensaio é exclusividade dos praticantes do idioma de Shakespeare. São apenas associações entre estilo e cultura.
Iniciei com uma referência à amplitude estilística e temática da crônica. Vejamos como isso funciona. Machado de Assis, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga: todos pertencem ao primeiro time da literatura brasileira e todos escreveram crônica durante a vida, muitas vezes até para ganhar o sustento. E ao fazê-lo, cada um deles imprimiu seu próprio estilo ao gênero.
Tanto é que quando falamos do Machado cronista, logo pensamos na política brasileira na época do Segundo Reinado. Mário de Andrade e Manuel Bandeira escreveram crônicas mais ligadas a aspectos históricos e culturais, enquanto Drummond imprimia poesia em seus textos para jornal.
Dos citados, Rubem Braga tem uma particularidade: sua obra maior é a crônica e a ela dedicou todo o seu talento criativo. Como conseqüência, podemos considerá-lo, sem medo de errar, o maior cronista da literatura brasileira. São antológicas as páginas de “O conde e o passarinho”, “A borboleta amarela” ou “Ai de ti, Copacabana”, só pra ficar em três exemplos magistrais.
Pano rápido para a atualidade: Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Zuenir Ventura, Contardo Calligaris e o já citado Carlos Heitor Cony. De novo temos cinco estilos e temáticas diferenciadas. Humor, comportamento, política, cotidiano, conflitos existenciais. Não há limites para a crônica, ainda que seu ponto de partida seja quase sempre o episódico, a atualidade, a vida ao rés-do-chão.
Mas o desafio maior de todo cronista está em ultrapassar esse elemento episódico que a inspirou e falar de perto ao leitor, sempre naquele tom de despretensão e oralidade que torna a crônica um gênero tão peculiar. Como lembra o crítico Antonio Candido, nenhuma literatura se sustenta apenas com cronistas. Mas, penso eu, nenhuma literatura e nenhum jornalismo podem prescindir do olhar irônico, poético e sorrateiro do cronista, que sabe como poucos fisgar o leitor.
M.S.V.
O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, por exemplo, classifica de crônica todos os seus escritos jornalísticos. Onde quer que escreva e sobre o assunto que for, será sempre crônica, costuma repetir em suas entrevistas.
No Brasil, a crônica é praticada desde o início de nossa literatura. Há quem diga que se trata de um gênero tipicamente brasileiro, assim como o ensaio é identificado como um gênero tipicamente inglês. É evidente que não somos os únicos a escrever crônica e nem o ensaio é exclusividade dos praticantes do idioma de Shakespeare. São apenas associações entre estilo e cultura.
Iniciei com uma referência à amplitude estilística e temática da crônica. Vejamos como isso funciona. Machado de Assis, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga: todos pertencem ao primeiro time da literatura brasileira e todos escreveram crônica durante a vida, muitas vezes até para ganhar o sustento. E ao fazê-lo, cada um deles imprimiu seu próprio estilo ao gênero.
Tanto é que quando falamos do Machado cronista, logo pensamos na política brasileira na época do Segundo Reinado. Mário de Andrade e Manuel Bandeira escreveram crônicas mais ligadas a aspectos históricos e culturais, enquanto Drummond imprimia poesia em seus textos para jornal.
Dos citados, Rubem Braga tem uma particularidade: sua obra maior é a crônica e a ela dedicou todo o seu talento criativo. Como conseqüência, podemos considerá-lo, sem medo de errar, o maior cronista da literatura brasileira. São antológicas as páginas de “O conde e o passarinho”, “A borboleta amarela” ou “Ai de ti, Copacabana”, só pra ficar em três exemplos magistrais.
Pano rápido para a atualidade: Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Zuenir Ventura, Contardo Calligaris e o já citado Carlos Heitor Cony. De novo temos cinco estilos e temáticas diferenciadas. Humor, comportamento, política, cotidiano, conflitos existenciais. Não há limites para a crônica, ainda que seu ponto de partida seja quase sempre o episódico, a atualidade, a vida ao rés-do-chão.
Mas o desafio maior de todo cronista está em ultrapassar esse elemento episódico que a inspirou e falar de perto ao leitor, sempre naquele tom de despretensão e oralidade que torna a crônica um gênero tão peculiar. Como lembra o crítico Antonio Candido, nenhuma literatura se sustenta apenas com cronistas. Mas, penso eu, nenhuma literatura e nenhum jornalismo podem prescindir do olhar irônico, poético e sorrateiro do cronista, que sabe como poucos fisgar o leitor.
M.S.V.
domingo, 27 de setembro de 2009
Apresentação de Edward Said

Uma apresentação das ideias e da trajetória de Edward Said (1935-2003) implica, necessariamente, fazer referência às suas origens. Isto por que suas raízes o situam na encruzilhada dos problemas atuais entre Oriente e Ocidente e no coração dos conflitos do Oriente Médio. Said nasceu em Jerusalém, mas não é judeu, é palestino de origem, mas sua família professava a fé cristã. A etnia árabe não o transformou em muçulmano. A isso tudo, some-se uma formação que teve início no Cairo e se prolongou por Nova York, onde Said acabou se fixando em definitivo ao se tornar professor na Universidade de Columbia.
Intelectual humanista, sua trajetória foi marcada por uma posição de crítica tanto em relação ao establishment político e cultural do Ocidente, quanto em relação ao mundo árabe. Autor de dezenas de livros abordando sempre as relações entre cultura e política, tornou-se mundialmente conhecido a partir da publicação de Orientalismo, em 1978. Nesta obra, procurou desconstruir as concepções dualistas, que dividem o planeta de modo estanque em Oriente e Ocidente.
Para Said, o orientalismo é um estilo de pensamento: “um modo de pensar o Oriente que ajudou a subordiná-lo através do conhecimento enviesado produzido sobre ele e que deu ao Ocidente o poder de ditar o que era significativo sobre o ‘outro’, classificá-lo junto com outros de sua espécie e colocá-lo ‘no seu lugar’.
Nos anos 1990, a tese desenvolvida em Orientalismo foi expandida para o cenário dos ex-impérios coloniais da Inglaterra, França e Estados Unidos, resultando no magnífico estudo Cultura e imperialismo (1993), que trata da relação entre cultura e império no contexto da descolonização.
A estas duas obras, que podem e devem ser lidas em conjunto, vem somar-se Covering Islam, de 1997, que estuda a cobertura dada pela mídia para os conflitos envolvendo países que, de uma forma ou de outra, pertencem ao chamado círculo do islamismo. O objetivo aqui é formular uma crítica aos critérios de noticiabilidade que norteiam a cobertura jornalística de conflitos que ocorrem em países como Irã, Iraque e Afeganistão, assim como o próprio conflito árabe-israelense. “Como a mídia ocidental determina o modo como nós vemos o resto do mundo?”, perguntas Said. A resposta passa pela apresentação de narrativas alternativas à visão hegemônica e pela construção de novas perspectivas da história.
Contra as concepções essencialistas de mundo, Said recomenda uma tomada de consciência sobre o lugar ocupado por aquele que tem a posse do discurso. Ecoando Foucault, Said sustenta que toda fala tem um lugar. E todo conhecimento ocupa um lugar de poder.
M.S.V.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
A história de um derrotado
Desonra, de J.M. Coetzee, foi finalmente adaptado para o cinema. Desde o seu lançamento, em 1999, muitos diretores tentaram comprar os direitos deste romance do escritor sul-africano. Coetzee somente autorizou a adaptação recentemente, e coube aos também sul-africanos Steve Jacobs e Anna Monticelli o desafio de transpor para as telas esta inquietante e devastadora história, que se passa na África do Sul pós-apartheid.
Em Desonra, o ressentimento, os ódios de classe e o conformismo são as forças que ocasionam os conflitos entre personagens que habitam uma sociedade dilacerada. O apartheid acabou; ficou a terra devastada por conflitos não resolvidos.
John Malkovich interpreta David Lurie, um professor de literatura que, aos 52 anos, tornou-se um derrotado. Leva uma vida sem sobressaltos, burocrática, conformada. Pragmático, ele resolve sua solidão recorrendo a uma prostituta, a quem visita regularmente uma vez por semana.
Sua rotina desmorona depois que ele se envolve com uma de suas alunas. Perde o cargo de professor e abandona o ambiente politicamente correto da universidade para se refugiar no interior do país, na fazenda onde mora sua filha.
Li esse romance há alguns anos, de um fôlego só, sem anotar uma única palavra, nenhum mesmo um traço nas margens do livro.
A leitura de Desonra incomoda, mas é impossível largar o livro. Coetzee sabe prender o leitor com sua prosa límpida, suas palavras medidas e imagens devastadoras.
Agora o drama do professor arruinado está nas telas. Não vejo a hora de conferir.
M.S.V.
Em Desonra, o ressentimento, os ódios de classe e o conformismo são as forças que ocasionam os conflitos entre personagens que habitam uma sociedade dilacerada. O apartheid acabou; ficou a terra devastada por conflitos não resolvidos.
John Malkovich interpreta David Lurie, um professor de literatura que, aos 52 anos, tornou-se um derrotado. Leva uma vida sem sobressaltos, burocrática, conformada. Pragmático, ele resolve sua solidão recorrendo a uma prostituta, a quem visita regularmente uma vez por semana.
Sua rotina desmorona depois que ele se envolve com uma de suas alunas. Perde o cargo de professor e abandona o ambiente politicamente correto da universidade para se refugiar no interior do país, na fazenda onde mora sua filha.
Li esse romance há alguns anos, de um fôlego só, sem anotar uma única palavra, nenhum mesmo um traço nas margens do livro.
A leitura de Desonra incomoda, mas é impossível largar o livro. Coetzee sabe prender o leitor com sua prosa límpida, suas palavras medidas e imagens devastadoras.
Agora o drama do professor arruinado está nas telas. Não vejo a hora de conferir.
M.S.V.
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