domingo, 11 de dezembro de 2011

De estrangeiros e de moradias: algumas impressões

Mariahilfer Strasse: padrão arquitetônico se repete pela cidade
O que é ser estrangeiro? É ser reconhecido pelo sotaque ou pela pronúncia. É ser classificado com um simples olhar pelo tipo físico ou pela cor da pele. Ou então pelo modo como se ganha a vida, ou seja, pelo trabalho, e pelo círculo de amizades, pelos hábitos incorporados. Diante dessa realidade, o conceito de cidadania não consegue dar conta. O sujeito pode ter direitos iguais, mas continua sendo um estrangeiro aos olhos dos nativos de um determinado local.
Pensei nisso após escutar a história de Draggo, um sérvio que mora há 16 anos em Viena. Fala alemão com um levíssimo sotaque eslavo. Deixou Belgrado com os pais e irmãos em 1995 para tentar a vida em Viena. Não voltou mais. Como ele, a quase totalidade dos empregados do hotel em que estou é de estrangeiros que chegam aqui e vão aprendendo o idioma no dia a dia, mas não têm nem terão condições de conseguir um emprego melhor. Percebo que a inclusão num determinado meio começa pelo uso da língua. Esta competência gera distinção e pertencimento. Se isso não ocorre, nos sentimos excluídos. Como em todas as grandes cidades européias, em Viena os estrangeiros executam funções destinadas aos que tem baixa escolaridade. “Os austríacos trabalham nos escritórios, na polícia, nos serviços públicos”, explica Draggo.
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Caminhando hoje de manhã pelas redondezas do hotel em que estou hospedado, fiquei observando que há muitos prédios velhos, necessitando de reforma urgente. Tenho visto também que todos os edifícios da cidade seguem o mesmo padrão arquitetônico. Vistos da calçada, são retangulares, com janelas enormes e possuem no máximo quatro andares. Pode-se contar nos dedos os edifícios construídos fora desse modelo. Vi alguns em áreas mais afastadas, acima do Danúbio, numa região de pouca densidade populacional.
Edifícios são antigos e amplos 
Creio que os moradores se identificam tanto com essa arquitetura -- os prédios devem ter uns 80 anos, no mínimo --, que recusam seguir outro padrão. Deve haver legislação impedindo tais mudanças, mas é inegável que a permanência no tempo desse modelo arquitetônico é reflexo de um apego à tradição, que remonta ao século 19, quando a cidade ganhou dimensões propriamente modernas, com a Viena da Ringstrasse. Além do mais, são edifícios com espaços internos amplos, bem diferentes dos nossos minúsculos apartamentos no Brasil. Tudo isso contribui para um sentimento de identificação com a tradição e de recusa à mudança.
M.S.V.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Espetáculo de música sacra na Catedral

Catedral de Santo Estéfano, em Viena (Fonte: Wikipedia)

O novo filme de Nanni Moretti, Habemus Papam, está em cartaz nos cinemas aqui. Em entrevista ao Wiener Zeitung ontem, o diretor explica que não quis fazer nenhuma crítica ao poder do Vaticano, nem abordar assuntos polêmicos como os casos de pedofilia ou as finanças da igreja. “Não me queixo da Igreja nesse filme”, declarou Moretti ao jornal. Sua preocupação foi, sobretudo, contar o processo de escolha de um Papa, o Conclave, a partir de um ângulo psicanalítico.
O cinema já produziu muitos filmes sobre a Igreja e o Vaticano e não é esse o assunto que quero abordar aqui. O filme de Moretti me fez refletir sobre a antiga e sólida relação que a Áustria mantém com o catolicismo, desde os tempos do império austro-húngaro.
Dia 08 foi feriado católico aqui, chamado de Imaculada Conceição (Maria Empfangnis, no original). A Catedral de Santo Estevão, (Spephansdom), que é a igreja matriz da Arquidiocese da Áustria, estava apinhada de gente para a Missa das 17 horas. Como estou empenhado em conhecer a cultura dessa cidade e desse país sob vários aspectos, o religioso não poderia ficar de fora.
E como não se conhece a Áustria sem levar em conta seu longo e pesado passado religioso, lá estava eu na Catedral. Para minha surpresa, o que assisti foi quase um concerto de música sacra. Não é como no Brasil, em que a mistura étnica produziu uma religiosidade mitigada. Aqui não: as missas são rigorosamente concebidas como se fossem um concerto. 
Assisti como observador e admito que fiquei encantado com a música, com o tom laudatório dos cânticos entoados pelo Coro e pelo solista. Música de Igreja, como nos tempos do Barroco. Apenas por um breve momento o público de fiéis (e de não fieis, como eu) é convidado a cantar junto. Fiquei apenas observando o espetáculo e a simbologia dessa prática religiosa que alimenta a fé de milhões nesse país profundamente católico.
M.S.V.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Isto também é Viena


Em minhas caminhadas por Viena, encontro algumas imagens que, embora nada tenham de excepcionais, revelam aquele lado que toda cidade tem, mas que os cartões postais costumam deixar de fora. Ruas estreitas, longe do burburinho consumista dos turistas, pichações na parede.
Deparei-me com essas imagens ontem, a caminho do Arquivo da Universidade de Viena, que fica num prédio muito antigo, longe do campus principal, que fica na parte nobre da cidade. Uma das mais antigas da Europa, a Universidade de Viena foi fundada em 1365 e, hoje, tem 88 mil alunos. 
Nessa parte, já próximo do Rio Danúbio, não há turistas e pode-se ver os vestígios desta velha cidade européia. As fotos, de amador, não tem nenhuma pretensão, a não ser a de revelar um pouco desse lado desconhecido da cidade, que descubro no meu cotidiano aqui.
M.S.V.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Itinerário afetivo de uma pesquisa

Prédio da Biblioteca Nacional Austríaca, na parte central do Hofburg

Viena. Jamais me esquecerei desses dias em Viena, em que pesquiso os papéis de Otto Karpfen. Já são muitas as boas e fortes lembranças desse período, mas as bibliotecas que conheci aqui merecem uma atenção à parte. Como faço uma pesquisa documental, tenho ido a várias instituições, museus e arquivos da cidade. Em todos os lugares, seja em instituições públicas ou particulares, tenho sido muito bem atendido. A qualidade dos serviços à disposição do estudioso e do pesquisador é impressionante.
Mas penso que nenhum outro local me encantou tanto quanto a Österreichische Nationalbibliothek, a Biblioteca Nacional Austríaca. Localizada em Heldenplatz – o encantador e enigmático Heldenplatz, sobre o qual ainda escreverei --, a ONB é o lugar ideal para se ler, estudar e pesquisar. Não apenas pelo acervo, cujos números desconheço, mas principalmente pelo ambiente. E uma biblioteca sem ambiente afasta os leitores.
Fachada do Salão Barroco, biblioteca
histórica construída em 1723
Está sempre cheia de estudantes de todas as idades, mas há muitos jovens, e confesso que nunca vi tantos estudando ao mesmo tempo. Na enorme Sala de Leitura, todos ficam em suas mesas, com luzes individuais e cadeiras confortáveis, com seus cadernos e notebooks, estudando para provas, fazendo tarefas. Enfim, um ambiente tão cheio de vida que nem parece uma biblioteca. Sempre tive aversão a bibliotecas vazias, que dão tédio e tiram a vontade de estudar. Na ONB isso não existe. Não sei explicar. Talvez sejam apenas impressões de estrangeiro. Mas há várias semanas que freqüento o local e a cena é a mesma.
Quando saio, por volta das 20 horas (o que já é noite alta, pois desde meados de novembro tem escurecido às 16 horas), e atravesso a enorme praça de Heldenplatz, com as luzes do Hofburg todas acesas, tenho a sensação de que jamais esquecerei esse cenário. Nem a temperatura próxima de zero é capaz de esfriar a emoção que sinto quando deixo esse local tão cheio de significado, tão prenhe de história. Foi aqui, por exemplo, que Hitler, em 15 de março de 1938, fez o discurso em que anunciou a anexação da Áustria pela Alemanha.
A Biblioteca ocupa posição central no imenso prédio que compõe o Hofburg e isso também me parece significativo do apreço que este país tem pela cultura, pelos livros, pelos seus documentos, enfim, pelos seus estudantes. Tenho observado que a Biblioteca talvez seja o único local turístico da cidade em que os turistas não são maioria, o que mostra que o lugar é frequentado pelos moradores. E, é claro, por estrangeiros em busca de conhecimento.
M.S.V.

domingo, 27 de novembro de 2011

Poesia da gramática e do sabor

Viena. Meu jornal de leitura diária aqui é o Wiener Zeitung (“Vina tzaitung”, como me ensinou insistentemente a senhora da banca da esquina), um standard diferente dos nossos, pois tem mais largura e menos comprimento. A edição deste fim de semana tem 48 páginas divididas em quatro cadernos e esta estrutura se repete nos demais dias. O jornal é sóbrio e tem um bom equilíbrio entre texto e imagem. Desde o início me chamou atenção na banca, por destoar de tablóides populares como Kronen Zeitung e Österreich, ou o Heute, distribuído gratuitamente por toda a cidade.

Os vienenses com quem tenho contato diário vêem meu esforço para aprender a pronúncia correta de palavras e expressões e me ensinam, com muito boa vontade. Mas observo que nem todos tem disposição para dominar com fluência o idioma da cidade em que moram.
Viena é hoje uma cidade com muitos imigrantes, vindos de continentes como Ásia e África. No metrô, vejo vários desses imigrantes falando alto ao celular, no seu idioma materno, indiferentes a quem está ao lado e sem se incomodar com o fato de tornarem pública sua condição de estrangeiros. Estão aqui para “ganhar a vida”, mas recusam a assimilação, a aculturação. Observo isso com imigrantes turcos, indianos e africanos.
Nas ruas e shoppings, há muitos restaurantes asiáticos. Turcos oferecem seus kebaps, pratos feitos com carne desfiada, arroz, salada, páprica e muitas fatias de pão. Os chineses e japoneses montam seus tradicionais bufês do tipo “coma tudo o que puder”. Estão sempre lotados; são baratos. Nesses restaurantes populares, comida asiática é sinônimo de comida barata. Na primeira semana fui vítima dessa culinária asiática feita para estrangeiros com muita fome.
Logo, porém, percebi que aquilo não era Viena. Foi então que comecei a frequentar os restaurantes administrados por vienenses. Outro cardápio, outro ambiente, outro serviço, outra clientela. E o mais surpreendente: os preços não são tão diferentes daqueles.
Como entender então essa separação? Cinco semanas é pouco para conhecer a resposta, mas arrisco um palpite: pode estar na predisposição para conhecer a cultura local, para se deixar influenciar pelo ambiente de Viena. E isso começa pela poesia da gramática e continua na gramática do sabor.
M.S.V.

sábado, 19 de novembro de 2011

Carpeaux, Canetti e o velho Instituto de Química de Viena

O Instituto de Química da Wahringerstrasse, em Viena, onde
Carpeaux e Canetti estudaram na década de 1920 
Viena. Em busca de rastros e pistas que me levem a reconstituir a trajetória do crítico e jornalista Otto Maria Carpeaux (1900-1978), conhecido aqui em Viena como Dr. Otto Karpfen, cheguei à esquina da Wahringerstrasse com a Turkengasse. 
É nesse endereço que está localizado o Instituto de Química da Universidade de Viena, onde o jovem Otto Karpfen estudou entre os anos 1920 e 1925.
Em suas memórias, o escritor búlgaro Elias Canetti (1905-1994) relembra os tempos em que estudou no mesmo Instituto da Wahringerstrasse, e descreve-o como “o velho instituto enfumaçado, situado no começo da Wahringerstrasse” (Uma luz em meu ouvido, Companhia das Letras, trad. Kurt Jahn). Não há dúvida, é este o prédio, pensei, parado na calçada da Wahringer, numa fria tarde de inverno.
Canetti viveu muitos anos em Viena e foi nessa cidade que conheceu Veza, com quem viveria por toda a vida. Veza era uma mulher liberal, extremamente culta e que se recusava a seguir os padrões socialmente estabelecidos para as mulheres. Nos anos 1920, frequentava os círculos literários de Viena e as famosas conferências públicas de Karl Kraus, que por essa época era um figura central na cidade, e que se tornaria um dos jornalistas mais importantes da Europa no século 20.
Carpeaux e Canetti estudaram Química no mesmo instituto e por pouco não foram colegas. Cinco anos mais jovem do que Carpeaux, Canetti formou-se em 1929, quatro anos depois do jornalista austríaco-brasileiro. Creio que não iria errar por muito se dissesse que ambos se “conheciam” dos corredores do velho instituto, onde hoje funciona o curso de Medicina Genética da Universidade de Viena. Talvez até tenham conversado.
Não conheço nenhum artigo de Carpeaux sobre Canetti, mas a trajetória de ambos tem muitas coincidências. Além da origem judaica, da juventude vivida em Viena e da mesma profissão de Químico – que ambos jamais iriam exercer – os dois deixaram a cidade em 1938, quando Hitler entrou triunfante na ex-capital do império austro-húngaro.
Canetti refugiou-se na Inglaterra e, depois da guerra, passou a viver na Suíça. Carpeaux, que abandonara formalmente o judaísmo em 1933, teve um destino bem diferente. Fugiu para a Holanda e, um ano depois, chegou ao Brasil.
Canetti tornou-se um dos principais escritores do século 20, premiado com o Nobel de Literatura em 1981. Carpeaux tomou um caminho sem volta: no Rio de Janeiro, deixou para trás não apenas seus pais, seus livros e sua amada pátria, mas também sua língua materna, pois passou a escrever em português. Poucas coisas podem ser tão avassaladoras para o ser quanto isso. Há os exemplos de Conrad e Nabokov com o inglês, mas eles fizeram uma opção. O caso de Carpeaux é diferente, pois ele não tinha escolha.
Carpeaux abandonou também uma promissora carreira de ensaísta e jornalista, que se abria para ele em Viena nos anos 1930. No Brasil, tornou-se um crítico extraordinário, que produziu artigos incansavelmente durante 35 anos para diversas publicações. Mas escrevia em português e estava do outro lado do Atlántico. Aqui em Viena ele praticamente não existe. Ou melhor, só existe até 1938. O idioma pode ser tanto uma abertura quanto um confinamento.
Nós, no Brasil, certamente ganhamos. Sua obra brasileira está aí para provar. Mas eu não tenho certeza quanto a ele, principalmente quando penso no talento e na dimensão que seus artigos e ensaios assumiam na década de 1930. E agora que descubro outros mais aqui em Viena, fico a pensar que, se tivesse ele tido condições de permanecer na Europa, sua obra teria uma dimensão mais profunda do que a que teve no Brasil, que traz as marcas da mediação cultural, do comentário, do trabalho de segunda ordem. Meu único conforto é pensar que se nós, no Brasil, ganhamos com sua inserção em nossa cultura literária, ele, ao cruzar o Atlântico em fuga desesperada, escapou da morte.
M.S.V.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

De turista a estrangeiro

Bicicletas para alugar na Maria Hilfer Strasse, Viena
        Viena. Depois de quase um mês vivendo o cotidiano de uma cidade, a condição de turista dá lugar à de estrangeiro. Isso possibilita um olhar ao mesmo tempo menos apressado e mais atento a detalhes que o cidadão que vive a rotina do dia-a-dia costuma ignorar. Como, por exemplo, o sujeito que estende o copo pedindo umas moedas na escada da estação do metrô Burgasse, onde passo duas vezes todos os dias.
        É essa mesma condição que me permite escutar nas ruas e no metrô os diferentes sotaques que, em alguns casos, imagino (apenas imagino, embora consiga perceber que não falam como o nativo de Viena), correspondam a dialetos de regiões como o Tirol, próximo da Itália, a Caríntia, mais ao Sul, ou a Upper Áustria, ao norte, que faz fronteira com a República Tcheca.
        Esses falares que escuto diariamente sem entender não impedem a comunicação, pois a norma culta do idioma alemão serve de parâmetro e dá a um estrangeiro com escasso vocabulário – como é o meu caso -- condições de se fazer entender. Há, de fato, muitos estrangeiros em Viena. Não estou falando dos turistas que lotam Innerestadt – como é chamado o centro histórico. Afinal, esta é uma cidade que desenvolveu, como poucas, a indústria do turismo.
Hofburg, em Innerestadt, Viena: turismo e história
       Refiro-me à grande quantidade de imigrantes oriundos da Ásia, da região dos Bálcãs e da África. Dados oficiais indicam que 20% da população de Viena, que hoje tem 1.700.000 habitantes, é formada por estrangeiros. Ou seja, há cerca de 340 000 pessoas de outros países vivendo na capital austrícaca.
        Os vienenses parecem não se incomodar com essa “invasão”. Até onde pude ver – e essa é uma visão bastante parcial – os imigrantes acabam suprindo a necessidade de mão-de-obra para setores como lojas, restaurantes, mercados, hotéis etc. Mas a Viena de Innerestadt, dos cafés chiques, do Hofburg e seus caros souvenirs, das dezenas de Museus e das centenas de atrações culturais parece ser uma realidade muito distante de todos esses imigrantes que chegam a Viena em busca de um futuro melhor.
M.S.V.

  A grandeza e a tragédia de Carpeaux na Europa O destino trágico de um jornalista político na Áustria durante a década de 1930. Esta é a sí...