sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

 O Martelo, de Manuel Bandeira.


As rodas rangem na curva
dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu
naufrágio
Os elementos mais
cotidianos.
O meu quarto resume o
passado em todas as casas
que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de
pomba.
Sei que amanhã quando
acordar
Ouvirei o martelo do
ferreiro
Bater corajoso o seu
cântico de certezas.
(Manuel Bandeira, “Lira dos cinqüentanos”, 1940).

M.S.V.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

 O rumor do tempo nas páginas de Machado de Assis

Lá estão os arcaísmos de superfície, as palavras fora de moda, os ditados esquecidos e as velhas ironias. Tudo lembra uma peça de antiquário, mas a lição que fica ao final da leitura é de uma atualidade permanente.

É a sensação que temos ao ler Páginas recolhidas, coletânea de Machado de Assis publicada em 1899 que inclui contos, crônicas e outros textos de ocasião (Editora Garnier, 2006).

O livro é uma miscelânea e tudo o que está lá surgiu primeiro nos jornais da época, como o texto que recorda sua convivência com o livreiro e editor Baptiste-Louis Garnier, que foi um dos principais editores brasileiros da segunda metade do século 19. 

Garnier publicou tudo o que de mais importante surgia em matéria de literatura por aqui, de autores como José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Gonçalves de Magalhães, Aluísio de Azevedo, Olavo Bilac, além do próprio Machado de Assis.

Pois o texto que fecha este livro é justamente “Garnier”, um relato breve, em tom memorialistico, escrito por ocasião da morte do livreiro francês e publicado em outubro de 1893,. Machado abre o texto com a imagem do velho editor, morto, em seu caixão, sendo conduzido para o cemitério S. João Batista, no Rio.

Segunda-feira desta semana, o livreiro Garnier saiu pela primeira vez de casa para ir a outra parte que não a livraria. Não, murmurou ele talvez dentro do caixão mortuário, quando percebeu para onde o iam conduzindo, não é este o meu lugar; o meu lugar é na Rua do Ouvidor 71, ao pé de uma carteira de trabalho, ao fundo, à esquerda; é ali que estão os meus livros, a minha correspondência, as minhas notas, toda a minha escrituração”, escreve Machado.

Outro texto que dá sabor de época a está coletânea é o conto “Papéis velhos”, que retrata um deputado, de nome Brotero, que, num momento de crise pessoal, encerrado no seu gabinete de trabalho, madrugada alta, relê seus velhos papéis. “Não se releem livros ?”, pergunta ele. É assim que, “mergulhado nesse mar morto de recordações apagadas, negócios pessoais ou públicos, um espetáculo, um baile, dinheiro emprestado, uma intriga, um livro novo, um discurso, uma tolice, uma confidência amorosa”, o deputado começa a remexer no seu passado amoroso e pessoal. 

O leitor é levado a uma situação de suspense: achamos que ele vai romper com a hipocrisia e a falsidade que o rodeiam, mas, ao final, a carta que ele escreve, nessa madrugada de crise, rompendo com a vida em sociedade, será depositada junto aos demais papéis velhos, cujo destino é “o mar morto de recordações apagadas”. Em Machado, sabemos isso de seus contos e dos romances da segunda fase (Dom Casmurro, Memórias Póstumas etc) querer não é poder.

M.S.V.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

 Crônica: a escrita do Eu - Parte 1

De onde surgiu a crônica?

Gênero de literatura ligado ao jornalismo, praticado no Brasil há mais de um século, com tanta naturalidade e riqueza que até parece um gênero tipicamente brasileiro.

Estilo: em tom de conversa, próximo da vida cotidiana, oralidade, estabelece uma conversa com o leitor;

Origem: do grego Chronos; tempo. Sua origem está na crônica dos acontecimentos históricos;

Inspiração: o lembrar e o escrever; registro do que fica do vivido; o testemunho de uma vida, de uma época;

O cronista é um artesão da experiência; transforma a matéria-prima do vivido em narração; mestre na arte de contar histórias;

Quase todos os escritores e jornalistas brasileiros foram e/ou são cronistas. Mas o início de tudo está com os cronistas do descobrimento. Depois vieram Olavo Bilac, Machado de Assis, João do Rio. Isso sem citar os escritores modernos, do século 20;

É possível definir a crônica?

O cronista é aquele que consegue dar significação ao prosaico, ao pormenor condenado ao esquecimento, às coisas miúdas.

A crônica nunca foi um gênero maior e somos tentados a pensar que se o fosse talvez perdesse aquela habilidade estilística que, exatamente por ser despretensiosa, consegue captar o humano presente no dia-a-dia. Também não se pode conceber uma literatura feita unicamente de cronistas.

Além de fixar a oralidade no plano da linguagem escrita, a crônica é o gênero capaz de dizer as coisas mais sérias por meio de uma aparente conversa fiada.

A vida ao rés-do-chão, como definiu Antonio Candido, a crônica mantém uma relação com o factual, que lhe serve de referência primeira.

De acordo com Gustavo Corção, as crônicas enquanto gênero podem ser divididas em duas espécies: de um lado estão aquelas que se submetem aos fatos e que pretendem fornecer material contemporâneo à peneira dos historiadores; de outro lado, temos aquelas crônicas que se servem dos fatos para superá-los, ou que tomam os fatos do tempo como pretextos para divagações que escapam à ordem dos tempos.

M.S.V.

sábado, 30 de setembro de 2023

Em busca da Terra de Ninguém


No romance O cavaleiro da terra de ninguém o escritor Sinval Medina reconstrói a trajetória do português Cristóvão Pereira de Abreu, sertanista e comerciante que abriu o primeiro caminho terrestre ligando o Uruguai a São Paulo.



No distante século 18, havia uma extensa e despovoada faixa do território brasileiro que começava na Colônia do Sacramento, hoje Uruguai, e chegava até os campos da Vila de Santo Antônio dos Anjos de Laguna, ou apenas Laguna, como chamamos hoje. Nesta vasta e solitária paisagem, viviam “sem lei nem rei” minuanos, tapes, jesuítas, castelhanos, buenairenses e outros tipos erráticos, todos disputando um pedaço desta vasta, rica e desabitada parte do Brasil, chamada muito apropriadamente de Terra de Ninguém.

Este foi o cenário escolhido pelo escritor Sinval Medina para contar as aventuras do cavaleiro português Cristóvão Pereira de Abreu, que ficou conhecido como Rei dos Tropeiros, e que encarou o desafio de abrir um caminho por terra ligando as barrancas orientais do rio Uruguai à vila de Sorocaba, passando pelo litoral sul do país, pela pequena vila de Laguna e os planaltos de Curitiba.

Naquele tempo, o reino de Portugal tinha urgência em acelerar a ocupação daquele vasto território situado, de um lado, entre Sacramento e Laguna e, de outro, entre o rio Uruguai e o oceano Atlântico. A pequena Colônia de Sacramento figurava então como o último baluarte da coroa lusitana, mas vivia constantes ameaças dos vizinhos castelhanos, que se recusavam a reconhecer, como determinava o tratado de então, o Mar da Prata como legítima fronteira meridional do Brasil.

A história mostrou que esse limite jamais iria se impor. Até porque, Portugal estava muito ocupado protegendo outras regiões deste imenso país, como os portos do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro e de Santos, “por onde escoam o ouro, o açúcar e outras riquezas do Brasil, do que com a conquista e povoamento desta Terra de Ninguém”, escreve Sinval Medina.

Mas, ao contrário do que parece, este não é um livro de história e sim um romance de época, como o próprio autor gosta de definir. “Sou rotulado sempre como alguém que faz romance histórico, mas prefiro chamar o que faço de romance de época”, disse Sinval certa vez num debate.

Ao misturar personagens de ficção com figuras e lugares históricos, O cavaleiro da terra de ninguém atrai o leitor pelo tom localista, porém repleto de engenho, de sua linguagem.

Este romance, ou biografia romanceada, resgata de modo brilhante o linguajar de uma época passada, o Brasil colonial, valendo-se de um estilo que busca resgatar as múltiplas sonoridades da época.

Um traço marcante do estilo de Sinval Medina introduz as personagens na ação sem o tradicional uso do travessão, como na passagem a seguir, em que dialogam o próprio Cristóvão e seu sogro, Dom Rafael Amorim: “É de sua parte decisão feita, meu genro? Sim, senhor. Se tudo correr bem, parto dentro de duas semanas. E gostaria de fazê-lo com sua bênção e consentimento. Pensou bem no passo que vai dar? Outra coisa não tenho feito nos últimos tempos, senhor”.

O diálogo prossegue, sem qualquer marca, como se fosse relato ou crônica histórica. Em seguida, no mesmo parágrafo, entra o narrador em terceira pessoa, onipresente como num clássico romance realista: “No fundo, pensava ele próprio em fazer tal proposta. Partindo do velho Amorim, o arranjo fica ainda mais a jeito”.

Sobre essa marca inconfundível de seu estilo, assim escreveu a jornalista e professora da Universidade de São Paulo (USP), e também escritora, Cremilda Medina, em artigo de 2020 para o Jornal da USP: “há muito abandonou em seus textos literários aspas e travessões. Nem precisa desses distanciamentos de autor, porque ele se mete nos narradores e nos personagens, o parágrafo a eles pertence e só o ponto marca, na pontuação literária (não gramatical) a inflexão e mudança de vozes”.

Estilo que ele construiu ao longo de mais de cinco décadas de dedicação à literatura. Nascido em Porto Alegre em 1943, Sinval Medina vive em São Paulo desde 1971. Estreou na ficção em 1980 com Liberdade Condicional e, desde então, não parou mais: é autor de quinze romances, além de livros de poesia para crianças. Seu livro Tratado da altura das estrelas, de 1999, conquistou o Prêmio Zaffari Bourbon de Literatura.

Romance que retrata os desafios e os conflitos da povoação desta parte sul do país, em especial os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, O cavaleiro da Terra de Ninguém é, acima de tudo, uma narrativa mirabolante, que prende o leitor pela fluência da linguagem coloquial e pela trama envolvente de personagens de carne e osso. Enfim, um romance fundacional que diz muito sobre as origens da terra, da cultura e dos costumes daqueles que habitam a região sul do Brasil.
M.S.V.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Perfume numa página de Proust


Há certos livros que nos acompanham durante anos em releituras sucessivas. Por quase uma década, Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, foi meu livro de cabeceira. Naquela época, nos anos oitenta, carregava sempre comigo um dos sete volumes da Busca.
Certa vez, durante uma viagem, um vidro de perfume que trazia na mala quebrou, molhando o exemplar de Proust. Quando abri minha bagagem no hotel, as páginas de À sombra da raparigas em flor, o segundo volume da série, na bela tradução de Mario Quintana, exalavam o perfume derramado. As folhas de Proust secaram e os anos passaram, mas até hoje quando abro aquele exemplar o suave perfume me transporta de imediato para aquele quarto de hotel.
As circunstâncias e o motivo da viagem desapareceram da memória, mas o cenário do hotel, aquele insignificante momento, em que nada de especial acontecera, está até hoje vívido na lembrança. Trata-se apenas de uma cena, ativada pelo toque daquelas páginas até hoje manchadas de perfume. É a memória involuntária, fenômeno recriado a todo instante naquela obra, e que tanto fascina os leitores. M.S.V.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um documentário conservador
O filme começa com imagens de maio de 68 na França. Em seguida, vemos cenas de uma família e amigos em viagem a China de Mao. É a família do narrador, na voz de uma mulher. Voz grave, pausada, buscando verossimilhança.
E assim seguirá a economia narrativa de "No intenso agora", documentário de João Moreira Salles. A revolução cultural de Mao Tse Tung na China surge em contraponto a revolta estudantil de maio de 68 na França. Fica a impressão de que a primeira venceu, a segunda terminou em farsa, acordo com os patrões. Na China, porém, todos são iguais. Não há espaço para a liberdade individual, pois a liberdade diferencia. E numa sociedade de iguais não pode haver diferença.
Lá pelas tantas, ouvimos do narrador: " A maior propaganda anti-comunista é a tristeza de Berlim oriental".
Conheci essa tristeza, ou o que restou dela, em 2015, quando percorri a Karl Marx Allee, na antiga Berlim oriental. Tristeza do vazio das grandes alamedas sem vida.
O documentário de João Moreira Salles incomoda. Incomoda pois o ponto de vista narrativo é conservador. 
M.S.V.

domingo, 18 de outubro de 2015

Ele ainda está por aqui? Só aqui?

O ator Oliver Masucci no papel de Hitler (Fonte: Zeit online)
Escrevo na manhã do dia de meu retorno para o Brasil. Quando se viaja para trabalhar, como é o caso, pouco tempo sobra para turismo. Procurei fazer isso naturalmente, como complemento da rotina de trabalho que mantive nesses vinte dias em Munique. Andei pelas ruas, usei metrô, trem e ônibus. Só faltou andar de bicicleta, mas isso estava além das minhas forças. Aliás, ver os idosos pedalando, indo ou voltando do mercado, humilha aqueles que, como eu, encaram a bicicleta como coisa de jovem, de estudante. Aqui a lógica é outra.
A Alemanha vive momento político delicado com a entrada de refugiados sírios e turcos. Uma política de Estado que resulta de um gesto político louvável e inteligente de Angela Merkel. Até o final deste ano, a Alemanha deve receber cerca de 800 mil imigrantes. Não é pouca gente.
A medida tem uma dimensão humanitária, mas também pragmática: o país tem necessidade de acolher gente disposta a trabalhar e construir sua vida, recolhendo impostos e contribuindo para a Previdência. Mesmo assim, a medida está longe de ter unanimidade.
O assunto veio à tona durante jantar com professores e pesquisadores da Universidade de Munique, em que participei na semana passada. Perguntei se a presença dos imigrantes em tão curto espaço de tempo não acarretaria um conflito cultural. É inevitável, e isso já começa a ficar evidente nas manifestações, pró e contra, que ocorrem aqui mesmo em Munique. Ontem à tarde, à frente da Prefeitura velha, presenciei manifestação favorável ao acolhimento dos refugiados, promovida pelo partido comunista alemão.
Mas o que preocupa mesmo é o movimento anti-islâmico alemão chamado Peguida, que surgiu em Dresden, mas já chegou a Munique. O Peguida, que em português significa “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”, ganha adeptos, e é impossível prever o que ocorrerá nos próximos meses.
Ontem, no final da tarde, estava na plataforma de embarque do metrô e percebi a chegada de um grupo significativo de imigrantes de origem árabe. Eram jovens alegres, bem vestidos, conversavam entre si, e parecia que estavam a caminho de alguma diversão. Afinal, era sábado. Foi então que ouvi, ao meu lado, em voz baixa, a fala de um homem aparentando uns 50 anos: “Kopf Turc, puta que pariu”. Assim mesmo, “cabeça de turco”. Os jovens seguiram seu rumo e o homem, que julguei ser alemão, seguiu o dele.
É no dia-a-dia que esse conflito étnico-cultural vai se desdobrar. O tema requer atenção e há, aqui, um debate cada vez maior sobre o assunto. Talvez por isso a estreia de “Er ist wieder da”, (“Ele ainda está aqui”) esteja chamando tanto a atenção. O filme conta, em tom satírico, o imaginário retorno de Hitler a Berlim, 70 anos depois de seu desaparecimento. Encontra uma mulher no poder e muitos e muitos estrangeiros pelas ruas de sua pátria. O filme conta as reações do ex-Führer, que agora está sem poder, sem partido e sem Eva. Uma metáfora da ameaça constante do retorno do autoritarismo e da intolerância, não só aqui, mas também no Brasil de hoje.

M.S.V.

  O Martelo, de Manuel Bandeira . As rodas rangem na curva dos trilhos Inexoravelmente. Mas eu salvei do meu naufrágio Os elementos mais cot...