sábado, 30 de setembro de 2023

Em busca da Terra de Ninguém


No romance O cavaleiro da terra de ninguém o escritor Sinval Medina reconstrói a trajetória do português Cristóvão Pereira de Abreu, sertanista e comerciante que abriu o primeiro caminho terrestre ligando o Uruguai a São Paulo.



No distante século 18, havia uma extensa e despovoada faixa do território brasileiro que começava na Colônia do Sacramento, hoje Uruguai, e chegava até os campos da Vila de Santo Antônio dos Anjos de Laguna, ou apenas Laguna, como chamamos hoje. Nesta vasta e solitária paisagem, viviam “sem lei nem rei” minuanos, tapes, jesuítas, castelhanos, buenairenses e outros tipos erráticos, todos disputando um pedaço desta vasta, rica e desabitada parte do Brasil, chamada muito apropriadamente de Terra de Ninguém.

Este foi o cenário escolhido pelo escritor Sinval Medina para contar as aventuras do cavaleiro português Cristóvão Pereira de Abreu, que ficou conhecido como Rei dos Tropeiros, e que encarou o desafio de abrir um caminho por terra ligando as barrancas orientais do rio Uruguai à vila de Sorocaba, passando pelo litoral sul do país, pela pequena vila de Laguna e os planaltos de Curitiba.

Naquele tempo, o reino de Portugal tinha urgência em acelerar a ocupação daquele vasto território situado, de um lado, entre Sacramento e Laguna e, de outro, entre o rio Uruguai e o oceano Atlântico. A pequena Colônia de Sacramento figurava então como o último baluarte da coroa lusitana, mas vivia constantes ameaças dos vizinhos castelhanos, que se recusavam a reconhecer, como determinava o tratado de então, o Mar da Prata como legítima fronteira meridional do Brasil.

A história mostrou que esse limite jamais iria se impor. Até porque, Portugal estava muito ocupado protegendo outras regiões deste imenso país, como os portos do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro e de Santos, “por onde escoam o ouro, o açúcar e outras riquezas do Brasil, do que com a conquista e povoamento desta Terra de Ninguém”, escreve Sinval Medina.

Mas, ao contrário do que parece, este não é um livro de história e sim um romance de época, como o próprio autor gosta de definir. “Sou rotulado sempre como alguém que faz romance histórico, mas prefiro chamar o que faço de romance de época”, disse Sinval certa vez num debate.

Ao misturar personagens de ficção com figuras e lugares históricos, O cavaleiro da terra de ninguém atrai o leitor pelo tom localista, porém repleto de engenho, de sua linguagem.

Este romance, ou biografia romanceada, resgata de modo brilhante o linguajar de uma época passada, o Brasil colonial, valendo-se de um estilo que busca resgatar as múltiplas sonoridades da época.

Um traço marcante do estilo de Sinval Medina introduz as personagens na ação sem o tradicional uso do travessão, como na passagem a seguir, em que dialogam o próprio Cristóvão e seu sogro, Dom Rafael Amorim: “É de sua parte decisão feita, meu genro? Sim, senhor. Se tudo correr bem, parto dentro de duas semanas. E gostaria de fazê-lo com sua bênção e consentimento. Pensou bem no passo que vai dar? Outra coisa não tenho feito nos últimos tempos, senhor”.

O diálogo prossegue, sem qualquer marca, como se fosse relato ou crônica histórica. Em seguida, no mesmo parágrafo, entra o narrador em terceira pessoa, onipresente como num clássico romance realista: “No fundo, pensava ele próprio em fazer tal proposta. Partindo do velho Amorim, o arranjo fica ainda mais a jeito”.

Sobre essa marca inconfundível de seu estilo, assim escreveu a jornalista e professora da Universidade de São Paulo (USP), e também escritora, Cremilda Medina, em artigo de 2020 para o Jornal da USP: “há muito abandonou em seus textos literários aspas e travessões. Nem precisa desses distanciamentos de autor, porque ele se mete nos narradores e nos personagens, o parágrafo a eles pertence e só o ponto marca, na pontuação literária (não gramatical) a inflexão e mudança de vozes”.

Estilo que ele construiu ao longo de mais de cinco décadas de dedicação à literatura. Nascido em Porto Alegre em 1943, Sinval Medina vive em São Paulo desde 1971. Estreou na ficção em 1980 com Liberdade Condicional e, desde então, não parou mais: é autor de quinze romances, além de livros de poesia para crianças. Seu livro Tratado da altura das estrelas, de 1999, conquistou o Prêmio Zaffari Bourbon de Literatura.

Romance que retrata os desafios e os conflitos da povoação desta parte sul do país, em especial os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, O cavaleiro da Terra de Ninguém é, acima de tudo, uma narrativa mirabolante, que prende o leitor pela fluência da linguagem coloquial e pela trama envolvente de personagens de carne e osso. Enfim, um romance fundacional que diz muito sobre as origens da terra, da cultura e dos costumes daqueles que habitam a região sul do Brasil.
M.S.V.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Perfume numa página de Proust


Há certos livros que nos acompanham durante anos em releituras sucessivas. Por quase uma década, Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, foi meu livro de cabeceira. Naquela época, nos anos oitenta, carregava sempre comigo um dos sete volumes da Busca.
Certa vez, durante uma viagem, um vidro de perfume que trazia na mala quebrou, molhando o exemplar de Proust. Quando abri minha bagagem no hotel, as páginas de À sombra da raparigas em flor, o segundo volume da série, na bela tradução de Mario Quintana, exalavam o perfume derramado. As folhas de Proust secaram e os anos passaram, mas até hoje quando abro aquele exemplar o suave perfume me transporta de imediato para aquele quarto de hotel.
As circunstâncias e o motivo da viagem desapareceram da memória, mas o cenário do hotel, aquele insignificante momento, em que nada de especial acontecera, está até hoje vívido na lembrança. Trata-se apenas de uma cena, ativada pelo toque daquelas páginas até hoje manchadas de perfume. É a memória involuntária, fenômeno recriado a todo instante naquela obra, e que tanto fascina os leitores. M.S.V.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um documentário conservador
O filme começa com imagens de maio de 68 na França. Em seguida, vemos cenas de uma família e amigos em viagem a China de Mao. É a família do narrador, na voz de uma mulher. Voz grave, pausada, buscando verossimilhança.
E assim seguirá a economia narrativa de "No intenso agora", documentário de João Moreira Salles. A revolução cultural de Mao Tse Tung na China surge em contraponto a revolta estudantil de maio de 68 na França. Fica a impressão de que a primeira venceu, a segunda terminou em farsa, acordo com os patrões. Na China, porém, todos são iguais. Não há espaço para a liberdade individual, pois a liberdade diferencia. E numa sociedade de iguais não pode haver diferença.
Lá pelas tantas, ouvimos do narrador: " A maior propaganda anti-comunista é a tristeza de Berlim oriental".
Conheci essa tristeza, ou o que restou dela, em 2015, quando percorri a Karl Marx Allee, na antiga Berlim oriental. Tristeza do vazio das grandes alamedas sem vida.
O documentário de João Moreira Salles incomoda. Incomoda pois o ponto de vista narrativo é conservador. 
M.S.V.

domingo, 18 de outubro de 2015

Ele ainda está por aqui? Só aqui?

O ator Oliver Masucci no papel de Hitler (Fonte: Zeit online)
Escrevo na manhã do dia de meu retorno para o Brasil. Quando se viaja para trabalhar, como é o caso, pouco tempo sobra para turismo. Procurei fazer isso naturalmente, como complemento da rotina de trabalho que mantive nesses vinte dias em Munique. Andei pelas ruas, usei metrô, trem e ônibus. Só faltou andar de bicicleta, mas isso estava além das minhas forças. Aliás, ver os idosos pedalando, indo ou voltando do mercado, humilha aqueles que, como eu, encaram a bicicleta como coisa de jovem, de estudante. Aqui a lógica é outra.
A Alemanha vive momento político delicado com a entrada de refugiados sírios e turcos. Uma política de Estado que resulta de um gesto político louvável e inteligente de Angela Merkel. Até o final deste ano, a Alemanha deve receber cerca de 800 mil imigrantes. Não é pouca gente.
A medida tem uma dimensão humanitária, mas também pragmática: o país tem necessidade de acolher gente disposta a trabalhar e construir sua vida, recolhendo impostos e contribuindo para a Previdência. Mesmo assim, a medida está longe de ter unanimidade.
O assunto veio à tona durante jantar com professores e pesquisadores da Universidade de Munique, em que participei na semana passada. Perguntei se a presença dos imigrantes em tão curto espaço de tempo não acarretaria um conflito cultural. É inevitável, e isso já começa a ficar evidente nas manifestações, pró e contra, que ocorrem aqui mesmo em Munique. Ontem à tarde, à frente da Prefeitura velha, presenciei manifestação favorável ao acolhimento dos refugiados, promovida pelo partido comunista alemão.
Mas o que preocupa mesmo é o movimento anti-islâmico alemão chamado Peguida, que surgiu em Dresden, mas já chegou a Munique. O Peguida, que em português significa “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”, ganha adeptos, e é impossível prever o que ocorrerá nos próximos meses.
Ontem, no final da tarde, estava na plataforma de embarque do metrô e percebi a chegada de um grupo significativo de imigrantes de origem árabe. Eram jovens alegres, bem vestidos, conversavam entre si, e parecia que estavam a caminho de alguma diversão. Afinal, era sábado. Foi então que ouvi, ao meu lado, em voz baixa, a fala de um homem aparentando uns 50 anos: “Kopf Turc, puta que pariu”. Assim mesmo, “cabeça de turco”. Os jovens seguiram seu rumo e o homem, que julguei ser alemão, seguiu o dele.
É no dia-a-dia que esse conflito étnico-cultural vai se desdobrar. O tema requer atenção e há, aqui, um debate cada vez maior sobre o assunto. Talvez por isso a estreia de “Er ist wieder da”, (“Ele ainda está aqui”) esteja chamando tanto a atenção. O filme conta, em tom satírico, o imaginário retorno de Hitler a Berlim, 70 anos depois de seu desaparecimento. Encontra uma mulher no poder e muitos e muitos estrangeiros pelas ruas de sua pátria. O filme conta as reações do ex-Führer, que agora está sem poder, sem partido e sem Eva. Uma metáfora da ameaça constante do retorno do autoritarismo e da intolerância, não só aqui, mas também no Brasil de hoje.

M.S.V.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Manhã de outono em Moosach

Agora que o trabalho ganha ritmo e rende seus primeiros frutos, permito-me cuidar um pouco da saúde (quando inverterei essa ordem?). Na primeira semana aqui isso não foi possível: é sempre a mais difícil numa viagem de pesquisa, pois temos que abrir trilhas na mata, buscar caminhos, refazer as rotas.
Desde o início desta semana, aproveito as manhãs e, após o café, sigo a “recomendação” de minha cardiologista e saio para caminhar nas redondezas. A Dachauer Strasse, por onde passo, é uma larga e arborizada avenida, com calçadas planas e espaço para os ciclistas. É uma das artérias que liga a região central da cidade aos bairros mais ao norte, como Moosach, onde estou.
O outono chegou com força, encobrindo o céu com espessas e cinzas nuvens e mandando o Sol embora. Mesmo assim, essas caminhadas matinais antes do trabalho são vitais para organizar as ideias, planejar o dia, observar a cultura local e viver um pouco do cotidiano dessa cidade, que encanta e impressiona por tratar bem seus moradores (e também os estrangeiros). M.S.V.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Pesquisando em Munique

Sala de leitura da Biblioteca Estadual da Baviera, em Munique
Escrevo para partilhar com vocês um pouco de minha experiência de pesquisa aqui em Munique. A estrutura da Bayerische Staatsbibliothek (Biblioteca estadual da Baviera) é impressionante. O acervo é de 10 milhões de volumes. Muda definitivamente o nosso conceito de biblioteca. Para ter acesso, basta registrar-se. Depois, consulta o catálogo e pede os livros nos terminais de computador ou de casa e, no dia seguinte, os livros estão numa estante específica pra você, identificada pelo seu número (vejam a foto). Durante 30 dias, você pode ficar com os livros, trabalhar na sala de leitura e devolver à sua estante até o dia seguinte. Para cópias, nada de papel. Tudo em pdf.


Quando me vejo percorrendo os corredores da BSB, indo de um setor a outro, ou descendo para o café, penso que estar aqui dá sentido à carreira acadêmica que abracei há muitos. Lembro de vocês, que são a nova geração e que dizer-lhes que essa é a parte melhor dessa carreira. Por mais que tenhamos problemas, deixo aqui meu testemunho de que vale o empenho e as dificuldades que a gente enfrenta no meio do caminho. Um abraço a todos, desde Munique. M.S.V.

sábado, 26 de setembro de 2015

Preparativos de viagem

Hoje viajo para Munique, na Alemanha. Ficarei poucos dias, e a viagem é de trabalho. Nem por isso deixo de imaginar uma viagem sem data pra voltar, daquelas em que vamos vivendo tão a fundo o cotidiano que chegamos ao absurdo de querer abandonar a língua materna e assumir em definitivo a condição ontológica de “out of place”, de estrangeiro. Se estivesse aqui, você não hesitaria em dizer: “vamos, este país não nos merece, esse tempo não é o nosso”.  Mas não é disso que quero falar. Ainda escuto sua voz me dizendo: “você precisa ir a Munique para colocar um ponto final nessa pesquisa”. Só você sabe o que isso significa.
Hoje vou atravessar o Atlântico para cumprir esse objetivo. Mas, no fundo, embarco nesse vôo com um sonho bom: na madrugada de segunda-feira, quando estiver a 10 mil metros de altura, vou olhar pela janela a imensidão escura que nos torna tão pequenos, fitar uma estrela e pensar que estou mais perto de você. Então vou adormecer e você estará nos meus sonhos, como acontece quase todas as noites, desde que se foi.
Mas chegará o momento em que o Sol vai entrar decidido pela janela, avisando que a vida continua e que precisa ser vivida. Então você me dirá: “siga em frente, está se saindo bem, dedique-se à sua carreira, publique seus textos, faça isso por mim também”. Em resposta, vou olhar pela mesma janela e avistar um mundo de possibilidades que se descortina lá fora, e sei que você estará comigo. Essa é minha esperança, isso é só o que sobrou daquilo que um dia se chamou religião.

M.S.V.

  A grandeza e a tragédia de Carpeaux na Europa O destino trágico de um jornalista político na Áustria durante a década de 1930. Esta é a sí...