sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um documentário conservador
O filme começa com imagens de maio de 68 na França. Em seguida, vemos cenas de uma família e amigos em viagem a China de Mao. É a família do narrador, na voz de uma mulher. Voz grave, pausada, buscando verossimilhança.
E assim seguirá a economia narrativa de "No intenso agora", documentário de João Moreira Salles. A revolução cultural de Mao Tse Tung na China surge em contraponto a revolta estudantil de maio de 68 na França. Fica a impressão de que a primeira venceu, a segunda terminou em farsa, acordo com os patrões. Na China, porém, todos são iguais. Não há espaço para a liberdade individual, pois a liberdade diferencia. E numa sociedade de iguais não pode haver diferença.
Lá pelas tantas, ouvimos do narrador: " A maior propaganda anti-comunista é a tristeza de Berlim oriental".
Conheci essa tristeza, ou o que restou dela, em 2015, quando percorri a Karl Marx Allee, na antiga Berlim oriental. Tristeza do vazio das grandes alamedas sem vida.
O documentário de João Moreira Salles incomoda. Incomoda pois o ponto de vista narrativo é conservador. 
M.S.V.

domingo, 18 de outubro de 2015

Ele ainda está por aqui? Só aqui?

O ator Oliver Masucci no papel de Hitler (Fonte: Zeit online)
Escrevo na manhã do dia de meu retorno para o Brasil. Quando se viaja para trabalhar, como é o caso, pouco tempo sobra para turismo. Procurei fazer isso naturalmente, como complemento da rotina de trabalho que mantive nesses vinte dias em Munique. Andei pelas ruas, usei metrô, trem e ônibus. Só faltou andar de bicicleta, mas isso estava além das minhas forças. Aliás, ver os idosos pedalando, indo ou voltando do mercado, humilha aqueles que, como eu, encaram a bicicleta como coisa de jovem, de estudante. Aqui a lógica é outra.
A Alemanha vive momento político delicado com a entrada de refugiados sírios e turcos. Uma política de Estado que resulta de um gesto político louvável e inteligente de Angela Merkel. Até o final deste ano, a Alemanha deve receber cerca de 800 mil imigrantes. Não é pouca gente.
A medida tem uma dimensão humanitária, mas também pragmática: o país tem necessidade de acolher gente disposta a trabalhar e construir sua vida, recolhendo impostos e contribuindo para a Previdência. Mesmo assim, a medida está longe de ter unanimidade.
O assunto veio à tona durante jantar com professores e pesquisadores da Universidade de Munique, em que participei na semana passada. Perguntei se a presença dos imigrantes em tão curto espaço de tempo não acarretaria um conflito cultural. É inevitável, e isso já começa a ficar evidente nas manifestações, pró e contra, que ocorrem aqui mesmo em Munique. Ontem à tarde, à frente da Prefeitura velha, presenciei manifestação favorável ao acolhimento dos refugiados, promovida pelo partido comunista alemão.
Mas o que preocupa mesmo é o movimento anti-islâmico alemão chamado Peguida, que surgiu em Dresden, mas já chegou a Munique. O Peguida, que em português significa “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”, ganha adeptos, e é impossível prever o que ocorrerá nos próximos meses.
Ontem, no final da tarde, estava na plataforma de embarque do metrô e percebi a chegada de um grupo significativo de imigrantes de origem árabe. Eram jovens alegres, bem vestidos, conversavam entre si, e parecia que estavam a caminho de alguma diversão. Afinal, era sábado. Foi então que ouvi, ao meu lado, em voz baixa, a fala de um homem aparentando uns 50 anos: “Kopf Turc, puta que pariu”. Assim mesmo, “cabeça de turco”. Os jovens seguiram seu rumo e o homem, que julguei ser alemão, seguiu o dele.
É no dia-a-dia que esse conflito étnico-cultural vai se desdobrar. O tema requer atenção e há, aqui, um debate cada vez maior sobre o assunto. Talvez por isso a estreia de “Er ist wieder da”, (“Ele ainda está aqui”) esteja chamando tanto a atenção. O filme conta, em tom satírico, o imaginário retorno de Hitler a Berlim, 70 anos depois de seu desaparecimento. Encontra uma mulher no poder e muitos e muitos estrangeiros pelas ruas de sua pátria. O filme conta as reações do ex-Führer, que agora está sem poder, sem partido e sem Eva. Uma metáfora da ameaça constante do retorno do autoritarismo e da intolerância, não só aqui, mas também no Brasil de hoje.

M.S.V.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Manhã de outono em Moosach

Agora que o trabalho ganha ritmo e rende seus primeiros frutos, permito-me cuidar um pouco da saúde (quando inverterei essa ordem?). Na primeira semana aqui isso não foi possível: é sempre a mais difícil numa viagem de pesquisa, pois temos que abrir trilhas na mata, buscar caminhos, refazer as rotas.
Desde o início desta semana, aproveito as manhãs e, após o café, sigo a “recomendação” de minha cardiologista e saio para caminhar nas redondezas. A Dachauer Strasse, por onde passo, é uma larga e arborizada avenida, com calçadas planas e espaço para os ciclistas. É uma das artérias que liga a região central da cidade aos bairros mais ao norte, como Moosach, onde estou.
O outono chegou com força, encobrindo o céu com espessas e cinzas nuvens e mandando o Sol embora. Mesmo assim, essas caminhadas matinais antes do trabalho são vitais para organizar as ideias, planejar o dia, observar a cultura local e viver um pouco do cotidiano dessa cidade, que encanta e impressiona por tratar bem seus moradores (e também os estrangeiros). M.S.V.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Pesquisando em Munique

Sala de leitura da Biblioteca Estadual da Baviera, em Munique
Escrevo para partilhar com vocês um pouco de minha experiência de pesquisa aqui em Munique. A estrutura da Bayerische Staatsbibliothek (Biblioteca estadual da Baviera) é impressionante. O acervo é de 10 milhões de volumes. Muda definitivamente o nosso conceito de biblioteca. Para ter acesso, basta registrar-se. Depois, consulta o catálogo e pede os livros nos terminais de computador ou de casa e, no dia seguinte, os livros estão numa estante específica pra você, identificada pelo seu número (vejam a foto). Durante 30 dias, você pode ficar com os livros, trabalhar na sala de leitura e devolver à sua estante até o dia seguinte. Para cópias, nada de papel. Tudo em pdf.


Quando me vejo percorrendo os corredores da BSB, indo de um setor a outro, ou descendo para o café, penso que estar aqui dá sentido à carreira acadêmica que abracei há muitos. Lembro de vocês, que são a nova geração e que dizer-lhes que essa é a parte melhor dessa carreira. Por mais que tenhamos problemas, deixo aqui meu testemunho de que vale o empenho e as dificuldades que a gente enfrenta no meio do caminho. Um abraço a todos, desde Munique. M.S.V.

sábado, 26 de setembro de 2015

Preparativos de viagem

Hoje viajo para Munique, na Alemanha. Ficarei poucos dias, e a viagem é de trabalho. Nem por isso deixo de imaginar uma viagem sem data pra voltar, daquelas em que vamos vivendo tão a fundo o cotidiano que chegamos ao absurdo de querer abandonar a língua materna e assumir em definitivo a condição ontológica de “out of place”, de estrangeiro. Se estivesse aqui, você não hesitaria em dizer: “vamos, este país não nos merece, esse tempo não é o nosso”.  Mas não é disso que quero falar. Ainda escuto sua voz me dizendo: “você precisa ir a Munique para colocar um ponto final nessa pesquisa”. Só você sabe o que isso significa.
Hoje vou atravessar o Atlântico para cumprir esse objetivo. Mas, no fundo, embarco nesse vôo com um sonho bom: na madrugada de segunda-feira, quando estiver a 10 mil metros de altura, vou olhar pela janela a imensidão escura que nos torna tão pequenos, fitar uma estrela e pensar que estou mais perto de você. Então vou adormecer e você estará nos meus sonhos, como acontece quase todas as noites, desde que se foi.
Mas chegará o momento em que o Sol vai entrar decidido pela janela, avisando que a vida continua e que precisa ser vivida. Então você me dirá: “siga em frente, está se saindo bem, dedique-se à sua carreira, publique seus textos, faça isso por mim também”. Em resposta, vou olhar pela mesma janela e avistar um mundo de possibilidades que se descortina lá fora, e sei que você estará comigo. Essa é minha esperança, isso é só o que sobrou daquilo que um dia se chamou religião.

M.S.V.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Elegia final para a mulher amada

Rejane Bernal Ventura (1963-2015),
Doutora em Filosofia pela USP e tradutora
À minha mais que amada Rejane,
As palavras que pronuncio nesse momento estão longe de esgotar toda a beleza e a complexidade do Ser que Rejane foi. Ainda assim, não posso deixar de falar sobre:
A Rejane a quem amei acima de todas as coisas, sem medida, sem limites, desde que a conheci, em maio de 1991, na Universidade de São Paulo, onde estudamos e começamos a namorar.
A Rejane intelectual, inteligente, criativa e minuciosa, que teve a ousadia e a coragem de ir muito além do meio onde nasceu, para se transformar numa pessoa de fina e discreta erudição, especialista na Arte do Renascimento, tema que amou desde a juventude, e do qual jamais se separou.
A Rejane generosa, que com sua luz e seu sorriso conquistava a amizade de todos. A Rejane sensível, que amava os animais, a natureza e a música de Vivaldi. A Rejane companheira, que cuidou de mim durante todos os dias em que estivemos juntos.
Se eu pudesse definir a relação que tivemos, eu e Rejane, diria que foi uma relação quase perfeita. Quase, pois o perfeito não existe. Tenho certeza de que, nos anos que me restam, viverei graças às lembranças dessa plenitude que foi nosso amor, e isso a morte não é capaz de apagar.
Rejane foi muito mais que amada; ela foi a mulher da minha vida! 
(Texto lido no funeral de Rejane Maria Bernal Ventura, em 14 de abril de 2015, em São Paulo).

M.S.V.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Roland Barthes e os dilemas do crítico

O crítico francês Roland Barthes
As notas de aula de Roland Barthes no Collège de France são a pedra de toque deste precioso projeto de reedição das Obras Completas do crítico francês. Já são mais de quinze volumes publicados pela editora Martins Fontes, todos com a supervisão de Leyla Perrone-Moisés, uma das maiores especialistas na obra do crítico francês e que, no Brasil, foi a principal responsável pela divulgação e explicação da obra de Barthes.
Intitulado A preparação do Romance, (São Paulo: Martins Fontes, 2005) o livro, em dois volumes, reúne os fragmentos e as anotações que Barthes escreveu para ler diante de seus alunos no prestigioso Collège de France, entre 1979 e 1980.
Essas notas permaneciam inéditas até 2003, quando a editora francesa Seuil, de Paris, começou a publicá-las em livro. E são reveladoras dos projetos e temas que ocupavam a mente de Barthes nos últimos anos de sua vida. O curso que deu no Collège de France foi interrompido por sua morte, ocorrida bruscamente em 1980, quando foi atropelado por um carro ao atravessar a rua.
Nessas aulas, Barthes se interroga sobre as condições de possibilidade que se apresentam a um escritor na preparação de uma obra de ficção. Ficamos sabendo, por exemplo, de seu projeto pessoal de escrever um romance, intitulado Vita Nova, que ele não pode realizar em decorrência da morte.
O fato não deixa e surpreender, e me pergunto se todo crítico não esconde em si o desejo de escrever ficção. A crítica e a interpretação literárias são, por definição, atividades de segunda ordem, mas nem por isso desprovidas de sentido: a função da crítica é servir de mediação entre os produtores e o público.
Como diz um outro crítico que admiro, George Steiner, “nem Tolstói ou Dostoiévski precisam de mim, mas eu tenho necessidade persistente, ética e imaginariamente, de A morte de Ivan Ilytch ou de Memórias do Subsolo”. Ou seja, o crítico é o sujeito que ama a literatura e seu caminho é mostrar ao leitor as razões pelas quais ele ama e conhece determinada obra.
Num momento em que a crítica acadêmica aprofunda ainda mais sua distância de critérios como gosto pessoal, intuição e sensibilidade em favor do acúmulo teórico-metodológico, nunca é demais reafirmar as razões e os propósitos da atividade crítica. Essas razões podem ser encontradas no velho criticismo, empenhado na tarefa de explicar o texto para o leitor.
Como escreve George Steiner: “Não julgar o dissecar, mas mediar. Somente através do amor pela obra de arte, somente através do reconhecimento constante e angustiado por parte do crítico da distância que separa seu ofício daquele do poeta, pode tal mediação ser alcançada. Trata-se de um amor tornado lúcido pela amargura: que olha para os milagres do gênio criativo, discerne seus princípios de existência, exibe-os para o público e, entretanto, sabe que não tem a menor participação, nem mesmo a mais ínfima, na sua criação”. (Tolstói ou Dostoiévski: um ensaio sobre o velho criticismo. São Paulo: Perspectiva, 2006).
Esse dilema do crítico que alimenta o desejo de escrever um romance parece muito visível nessas notas de Roland Barthes. Ele, que escrevia com estilo, que trabalhava a frase como um escritor, agora sabemos que alimentava o desejo de criar obras ficcionais. Barthes desejava uma Vida Nova de narrador, liberto das obrigações discursivas que a atividade crítica impõe, mas isso o destino não lhe possibilitou.
Quantos críticos não vivem esse dilema? Eis por que acredito que a crítica literária precisa surgir de um gesto de amor pela obra, jamais de ressentimento.

M.S.V.

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