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Um documentário conservador
O filme começa com imagens de maio de 68 na França. Em seguida, vemos cenas de uma família e amigos em viagem a China de Mao. É a família do narrador, na voz de uma mulher. Voz grave, pausada, buscando verossimilhança.
E assim seguirá a economia narrativa de "No intenso agora", documentário de João Moreira Salles. A revolução cultural de Mao Tse Tung na China surge em contraponto a revolta estudantil de maio de 68 na França. Fica a impressão de que a primeira venceu, a segunda terminou em farsa, acordo com os patrões. Na China, porém, todos são iguais. Não há espaço para a liberdade individual, pois a liberdade diferencia. E numa sociedade de iguais não pode haver diferença.
Lá pelas tantas, ouvimos do narrador: " A maior propaganda anti-comunista é a tristeza de Berlim oriental".
Conheci essa tristeza, ou o que restou dela, em 2015, quando percorri a Karl Marx Allee, na antiga Berlim oriental. Tristeza do vazio das grandes alamedas sem vida…
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Ele ainda está por aqui? Só aqui?

Escrevo na manhã do dia de meu retorno para o Brasil. Quando se viaja para trabalhar, como é o caso, pouco tempo sobra para turismo. Procurei fazer isso naturalmente, como complemento da rotina de trabalho que mantive nesses vinte dias em Munique. Andei pelas ruas, usei metrô, trem e ônibus. Só faltou andar de bicicleta, mas isso estava além das minhas forças. Aliás, ver os idosos pedalando, indo ou voltando do mercado, humilha aqueles que, como eu, encaram a bicicleta como coisa de jovem, de estudante. Aqui a lógica é outra. A Alemanha vive momento político delicado com a entrada de refugiados sírios e turcos. Uma política de Estado que resulta de um gesto político louvável e inteligente de Angela Merkel. Até o final deste ano, a Alemanha deve receber cerca de 800 mil imigrantes. Não é pouca gente. A medida tem uma dimensão humanitária, mas também pragmática: o país tem necessidade de acolher gente disposta a trabalhar e construir sua vida, recolhendo impostos e contribuindo para a Pr…

Manhã de outono em Moosach

Agora que o trabalho ganha ritmo e rende seus primeiros frutos, permito-me cuidar um pouco da saúde (quando inverterei essa ordem?). Na primeira semana aqui isso não foi possível: é sempre a mais difícil numa viagem de pesquisa, pois temos que abrir trilhas na mata, buscar caminhos, refazer as rotas. Desde o início desta semana, aproveito as manhãs e, após o café, sigo a “recomendação” de minha cardiologista e saio para caminhar nas redondezas. A Dachauer Strasse, por onde passo, é uma larga e arborizada avenida, com calçadas planas e espaço para os ciclistas. É uma das artérias que liga a região central da cidade aos bairros mais ao norte, como Moosach, onde estou. O outono chegou com força, encobrindo o céu com espessas e cinzas nuvens e mandando o Sol embora. Mesmo assim, essas caminhadas matinais antes do trabalho são vitais para organizar as ideias, planejar o dia, observar a cultura local e viver um pouco do cotidiano dessa cidade, que encanta e impressiona por tratar bem seus mo…

Pesquisando em Munique

Escrevo para partilhar com vocês um pouco de minha experiência de pesquisa aqui em Munique. A estrutura da Bayerische Staatsbibliothek (Biblioteca estadual da Baviera) é impressionante. O acervo é de 10 milhões de volumes. Muda definitivamente o nosso conceito de biblioteca. Para ter acesso, basta registrar-se. Depois, consulta o catálogo e pede os livros nos terminais de computador ou de casa e, no dia seguinte, os livros estão numa estante específica pra você, identificada pelo seu número (vejam a foto). Durante 30 dias, você pode ficar com os livros, trabalhar na sala de leitura e devolver à sua estante até o dia seguinte. Para cópias, nada de papel. Tudo em pdf.

Quando me vejo percorrendo os corredores da BSB, indo de um setor a outro, ou descendo para o café, penso que estar aqui dá sentido à carreira acadêmica que abracei há muitos. Lembro de vocês, que são a nova geração e que dizer-lhes que essa é a parte melhor dessa carreira. Por mais que tenhamos problemas, deixo aqui meu te…

Preparativos de viagem

Hoje viajo para Munique, na Alemanha. Ficarei poucos dias, e a viagem é de trabalho. Nem por isso deixo de imaginar uma viagem sem data pra voltar, daquelas em que vamos vivendo tão a fundo o cotidiano que chegamos ao absurdo de querer abandonar a língua materna e assumir em definitivo a condição ontológica de “out of place”, de estrangeiro. Se estivesse aqui, você não hesitaria em dizer: “vamos, este país não nos merece, esse tempo não é o nosso”.  Mas não é disso que quero falar. Ainda escuto sua voz me dizendo: “você precisa ir a Munique para colocar um ponto final nessa pesquisa”. Só você sabe o que isso significa. Hoje vou atravessar o Atlântico para cumprir esse objetivo. Mas, no fundo, embarco nesse vôo com um sonho bom: na madrugada de segunda-feira, quando estiver a 10 mil metros de altura, vou olhar pela janela a imensidão escura que nos torna tão pequenos, fitar uma estrela e pensar que estou mais perto de você. Então vou adormecer e você estará nos meus sonhos, como acontec…

Elegia final para a mulher amada

À minha mais que amada Rejane, As palavras que pronuncio nesse momento estão longe de esgotar toda a beleza e a complexidade do Ser que Rejane foi. Ainda assim, não posso deixar de falar sobre: A Rejane a quem amei acima de todas as coisas, sem medida, sem limites, desde que a conheci, em maio de 1991, na Universidade de São Paulo, onde estudamos e começamos a namorar. A Rejane intelectual, inteligente, criativa e minuciosa, que teve a ousadia e a coragem de ir muito além do meio onde nasceu, para se transformar numa pessoa de fina e discreta erudição, especialista na Arte do Renascimento, tema que amou desde a juventude, e do qual jamais se separou. A Rejane generosa, que com sua luz e seu sorriso conquistava a amizade de todos. A Rejane sensível, que amava os animais, a natureza e a música de Vivaldi. A Rejane companheira, que cuidou de mim durante todos os dias em que estivemos juntos. Se eu pudesse definir a relação que tivemos, eu e Rejane, diria que foi uma relação quase perfeita. …

Roland Barthes e os dilemas do crítico

As notas de aula de Roland Barthes no Collège de France são a pedra de toque deste precioso projeto de reedição das Obras Completas do crítico francês. Já são mais de quinze volumes publicados pela editora Martins Fontes, todos com a supervisão de Leyla Perrone-Moisés, uma das maiores especialistas na obra do crítico francês e que, no Brasil, foi a principal responsável pela divulgação e explicação da obra de Barthes. Intitulado A preparação do Romance, (São Paulo: Martins Fontes, 2005) o livro, em dois volumes, reúne os fragmentos e as anotações que Barthes escreveu para ler diante de seus alunos no prestigioso Collège de France, entre 1979 e 1980. Essas notas permaneciam inéditas até 2003, quando a editora francesa Seuil, de Paris, começou a publicá-las em livro. E são reveladoras dos projetos e temas que ocupavam a mente de Barthes nos últimos anos de sua vida. O curso que deu no Collège de France foi interrompido por sua morte, ocorrida bruscamente em 1980, quando foi atropelado por…