sábado, 28 de março de 2009

Perfume numa página de Proust

Há certos livros que nos acompanham durante anos em releituras sucessivas. Por quase uma década, Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, foi meu livro de cabeceira. Naquela época, nos anos oitenta, carregava sempre comigo um dos sete volumes da Busca.

Certa vez, durante uma viagem, um vidro de perfume que trazia na mala quebrou, molhando o exemplar de Proust. Quando abri minha bagagem no hotel, as páginas de À sombra da raparigas em flor, o segundo volume da série, na bela tradução de Mario Quintana, exalavam o perfume derramado.

As folhas de Proust secaram e os anos passaram, mas até hoje quando abro aquele exemplar o suave perfume me transporta de imediato para aquele quarto de hotel.

As circunstâncias e o motivo da viagem desapareceram da memória, mas o cenário do hotel, aquele insignificante momento, em que nada de especial acontecera, está até hoje vívido na lembrança. Trata-se apenas uma cena, ativada pelo toque daquelas páginas até hoje manchadas de perfume. É a memória involuntária, o fenômeno recriado a todo instante naquela obra, e que tanto fascina seus leitores.
M.S.V.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Naipaul e o enigma da chegada


Poucos escritores têm uma trajetória tão marcada pela distância de sua terra natal quanto V. S. Naipaul. Nascido em Trinidad, neto de brâmane e filho de um jornalista, Naipaul foi estudar em Oxford, na Inglaterra, quando tinha 18 anos. O que era para ser uma temporada de estudos, transformou-se numa permanência que dura até hoje. Mais do que isso: Vidiadhar Surajprasad (o V.S.) fez deste afastamento de suas origens a matéria-prima de sua ficção, que lhe valeu em 2001 o Prêmio Nobel de Literatura (foto).

Em O enigma da chegada, livro que releio agora após dez anos, Naipaul faz um acerto de contas com o passado. Isto por que, para ele, abraçar a carreira de escritor significava ao mesmo tempo adotar o inglês como idioma e romper com as próprias origens. “A pequenez colonial que não se coadunava com a grandeza de minha ambição”, lembra o escritor a certa altura deste livro.

O tema de O enigma da chegada gira em torno deste desejo de realizar-se como escritor num país estrangeiro, e isso implica refletir sobre a própria trajetória:

“Eu me tornara escritor após um longo período de preparação! E então descobri que ser escritor não era (como eu imaginava) um estado -- de competência, ou realização, ou fama, ou contentamento – aonde se chegava ou onde se permanecia.” Esta carreira trazia uma angústia específica: todo o trabalho que um livro me custara, todos os desafios e satisfações que ele me proporcionara, o tempo depois levava-os embora. E, com a passagem do tempo, eu sentia que minhas realizações passadas zombavam de mim; pareciam pertencer a uma época de vigor, que agora havia terminado para sempre. Voltavam o sentimento de vazio, a ianquietação; e tornava-se necessário mais uma vez, com base em meus recursos interiores apenas, empreender este processo exaustivo de novo.”

Este é o enigma de tornar-se escritor. Este é o enigma da chegada de Naipaul.
M.S.V.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Literatura em perigo não é novidade


Eis um livro que não está nem estará em minha mesa. Trata-se do recém lançado A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov (Trad. de Caio Meira, Difel, 96 p,., R$ 25). Não, caro leitor, não se trata de arrogância, desprezo ou falta de interesse pelo tema que, aliás, é dos mais importantes de nossa época.

Nesta obra, Todorov – um dos principais expoentes do estruturalismo francês – argumenta que o ensino e a pesquisa de literatura, feito por críticos e professores, está contribuindo para torná-la cada vez menos relevante na sociedade. Em síntese, argumenta que nas escolas e universidades (ele aborda exclusivamente a situação francesa, mas o que diz de lá vale igualmente para o que ocorre aqui) a preocupação metodológica e teórica tomou o lugar dos textos ficcionais.

Ora, qualquer um que conheça o que se passa num curso de Letras sabe que isso não é novidade. Para se institucionalizar enquanto área do conhecimento, as sub-áreas acadêmicas ligadas ao ensino e ao estudo das literaturas necessitaram constituir-se teoricamente. Aos poucos, os cursos de literatura foram se tornando cada vez mais teóricos e distanciando-se tos textos ficcionais.

Sei que estou generalizando e corro o risco de ser injusto com muitos dos excelentes professores de literatura que sabiamente conseguem combinar as duas coisas. Eu mesmo já tive aulas na USP com mais de um desses mestres, mas também já freqüentei cursos de literatura comparada que comparavam apenas teoria e nada diziam da criação literária.

Não é preciso ler este livro para saber que a literatura corre perigo. O assunto é antigo. Que o diga Paul Valéry, como nesta passagem incômoda mas verdadeira:

“Entre esses homens sem grande apetite pela poesia, que não conhecem a necessidade dela e que não a teriam inventado, quer o infortúnio que figure uma boa quantidade desses cuja tarefa ou destino é julgá-la, discorrer sobre ela; e, em suma, distribuir o que eles não tem. A isso dedicam, com freqüência, toda a sua inteligência e todo o seu zelo: e disso podem resultar conseqüências temíveis.”

Caro senhor Todorov; o senhor não tem o direito de publicar um livro como esse, pelo simples fato de que contribuiu para esse estado de coisas. Ou será que devemos esquecer todos os seus artigos?
M.S.V.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um abrigo contra o esquecimento

É preciso um talento incomum para transformar uma história de amor numa narrativa esteticamente convincente. Carta a D., de André Gorz (Trad. Celso Anzann Jr., Annablume/CosacNaify, 80 págs. R$ 29,00) consegue sair-se muito bem deste desafio.

Movido pelo desejo de recontar a trajetória de uma relação de quase seis décadas para compreender o sentido de sua própria existência, o narrador (autobiográfico) se lança na difícil tarefa de elaborar o passado. No entanto, o ato de lembrar não tem o sentido de culto ao passado: o que se vê são as lembranças iluminando o presente.

E sem preocupações de ordem cronológica. Uma lembrança puxa outra, num fluxo por vezes aleatório, mas sempre comovente. Como o trecho que descreve o momento em que ele e sua mulher de toda a vida, Dorine, se conheceram, na Paris do pós-guerra.

“Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista”, escreve. “Depois da terceira ou quarta saída, eu afinal beijei você”, relembra Gorz, em meio a relatos sobre as dificuldades para sobreviver e, mais ainda, viver como intelectual numa cidade como Paris, sem ter relações com pessoas influentes.

André Gorz e Dorine viveram juntos durante quase seis décadas “obsessivamente dedicados um ao outro”. Ao recontar a história desse amor e dessa comunhão incomuns, Gorz revela sua crença na escrita enquanto mecanismo de compreensão do sentido de uma vida.

Escrita esta que, em sua concretude, promete ser um abrigo contra o esquecimento e contra a morte. Ao que Gorz conclui: “eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos”.
M.S.V.

sábado, 31 de janeiro de 2009

John Updike, o retratista da vida americana


Houve um tempo em que os livros de John Updike (1932-2009) não saíam de minha mesa. Do escritor americano, morto dia 27 de janeiro, aos 76 anos, guardo com admiração as belas passagens de suas memórias, intituladas de Consciência à flor da pele, da crítica literária reunida em Bem perto da costa ou dos contos de Uma outra vida.

A reputação de Updike veio com a extensa série Coelho (Coelho cai, Coelho corre, Coelho cresce, Coelho em crise, Coelho se cala), protagonizada por um ex-campeão de basquete chamado Harry Rabbit Angstrom. Escrita ao longo de mais de três décadas, entre os anos 1960-1990, a série sintetiza a concepção de mundo do americano médio. Rabbit é um sujeito alienado politicamente, consumidor de TV e de alimentos congelados e morador de Cidadezinhas (título, aliás, de seu mais recente livro lançado no Brasil), ricas e provincianas, moralistas e religiosas.

Esteve no Brasil em 1992 e dois anos depois publicou Brazil, romance ambientado no país, em que faz uma releitura bastante livre da lenda de Tristão e Isolda. Updike tem uma escrita límpida e uma sintaxe muito bem amarrada. Soube como poucos retratar o trivial e o prosaico com beleza estilística, sem rebuscamentos ou digressões.

Agora que estou prestes a fixar residência em Bauru, no meio-oeste do estado de São Paulo, talvez seja uma boa oportunidade -- e também uma homenagem a um escritor que já li muito -- voltar à obra de Updike. Acho que vou marcar este retorno com o recém lançado Cidadezinhas.
M.S.V.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Austerlitz: notas de leitura

Austerlitz, de W.G. Sebald, é construído a partir de um duplo movimento: temos um narrador que conta seus encontros com Austerlitz e, a este relato, feito de lembranças, justapõe-se as recordações do próprio Austerlitz, professor aposentado, especialista em arquitetura do capitalismo, que, por sua vez, conta para o primeiro narrador histórias de suas viagens, descobertas, observações relativas aos mais variados assuntos, como um ornitólogo, um aviador, sua infância etc.

A narrativa flui, assim, em camadas de recordações, que tanto podem ser reflexões sobre sua própria trajetória, seus projetos passados e seus sentimentos presentes, como o momento em que reflete sobre o ato de ler:

“Como eu gostava, disse Austerlitz, de me sentar na companhia de um livro até noite fechada, até que não conseguisse mais decifrar uma palavra e os meus pensamentos começassem a girar em círculos, e como eu me sentia seguro sentado à escrivaninha de casa na noite escura, apenas observando a ponta do lápis à luz da lâmpada seguir como se por desígnio próprio e com absoluta fidelidade a sua própria sombra, que deslizava regularmente da esquerda para a direita e linha após linha sobre o papel pautado”. (p.123)

Uma das paixões de Austerlitz é a fotografia. Gostava de distribuir suas pequenas e gastas fotos sobre uma mesa grande laqueada de cinza-fosco, na ante-sala de sua casa em Londres. Ali sentava e ficava acionando a memória, “dispondo aquelas fotografias ou outras de sua coleção com a parte de trás voltada para cima, como se fosse uma partida de paciência, e que então, sempre admirado com o que via, ele as virava uma a uma, empurrava-as de lá para cá e uma sobre as outras, arrumava-as em uma ordem que resultava de um certo ar de família, ou ainda as retirava do jogo até que nada mais restasse senão o tampo cinza da mesa, ou até que ele, exausto de tanto pensar e recordar, era obrigado a deitar-se na otomana”. (p.120-121)

O livro, aliás, é ilustrado com uma série de fotos que parecem ter saído da coleção particular de Sebald.

M.S.V.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Le Clézio e a batalha da literatura

É lugar comum da crítica pensar que quando um escritor escreve sobre literatura contribui para iluminar sua própria obra. Melhor será pensar que quando um ficcionista ou poeta escreve em prosa ensaística acrescenta à sua própria imagem de escritor a de intelectual que contribui para o debate público.

É esse o caso de Jean-Marie Le Clézio, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2008. Seu discurso na Academia sueca é uma importante reflexão sobre a situação da literatura e da cultura na autalidade.

Por que escrevemos?, pergunta Le Clézio na abertura de seu discurso. Cada um tem seus motivos, suas predisposições, seu contexto de produção. Para este escritor que alimenta sua ficção das vivências no continente africano, escrever é testemunhar aquilo que viveu. Mas escrever é o oposto de atuar, de agir no mundo. “Como pode o escritor atuar, se tudo o que ele sabe fazer é recordar?”, pergunta.

Para Le Clézio, o escritor deseja mais do que tudo atuar, ao invés de simplesmente dar seu testemunho por meio da linguagem. “Escrever, imaginar e sonhar de tal maneira que suas palavras, invenções e sonhos tenham impacto sobre a realidade, mudem as idéias das pessoas, preparem-nas para um mundo melhor”. Esta é a resposta de Le Clézio para o seu ofício.

Eis um escritor que acredita no poder transformador da literatura. Por isso defende em seu texto que a cultura pertence a toda a humanidade. Além disso, clama por mais alfabetização e maior disseminação do livro entre as populações carentes e isoladas do planeta. Para ele, é fundamental estabelecer fundos para bibliotecas e livrarias ambulantes e, sobretudo, publicar obras escritas nas chamadas línguas minoritárias.

Tudo isso ajudaria a literatura em sua batalha sem fim para proporcionar ao ser humano o “auto-conhecimento, o descobrimento dos outros e para escutar o concerto da humanidade, em toda sua rica gama de temas e modulações”.
M.S.V.

  A grandeza e a tragédia de Carpeaux na Europa O destino trágico de um jornalista político na Áustria durante a década de 1930. Esta é a sí...